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Aidenor Aires Pereira

Aidenor Aires é escritor. Sucedeu o acadêmico Eli Brasiliense Ribeiro.


Data de nascimento: 30/05/1946

Data de posse: 17/02/2000

Cadeira Nº 02

Posição: 3° ocupante

Indisponível.

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PANEGÍRICO AO ACADÊMICO JOSÉ FERNANDES

 

PROFESSOR JOSÉ FERNANDES,

 UM BRINDE À VIDA.     ORAÇÃO FÚNEBRE.

Aidenor Aires*

 

Compareço aqui, ao porto que acena à eternidade, para cumprir a dolorida, mas honrosa missão, a mim deferida pela presidente desta Academia, de proferir a oração da Sessão Magna de Saudade – nome que damos à despedida acadêmica – em homenagem ao ilustre confrade José Fernandes, alçado à transcendência no último dia 22 do mês menor.

Aqui não venho para louvar ou invectivar a morte.  Nada entendo da “indesejada das gentes”. Apenas tenho provado de sua taça partida, no exício de amigos, parentes e pessoas amadas. Sei, e pouco, também, das coisas da vida. Nunca procurei os viajantes do mistério na fria hospedaria da terra, nem nas lápides, nem em seus inumados refúgios corpóreos. Por isso, amigos confrades, não venho agora falar de perda ou subtração. Toda vida humana é somatória, toda vida é plenitude no rasgo temporal de sua encarnação.

Sobre nossos mortos, portanto, cantaremos seu desabrochar e epifania, sua juventude solar, sua ingente luta para revelar-se na romagem breve dos dias. Por isso, estendo minha palavra e meus braços alongados num “Até logo!” ao mestre, intelectual, orgulho da facção humana, acadêmico José Fernandes.

Para José Fernandes será difícil, árduo, senão impossível morrer. Seu corpo/espírito ou espirito/corpo, no mistério da encarnação – como entende Gabriel Marcel –  percorreu na jornada terrestre vários territórios. Todos aqueles que sua inteligência, descortino e sensibilidade palmilharam.

Na trajetória da transcendência não se percorre uma viagem. Viagem tem destino. Desloca-se no espaço ou tempo vencendo distâncias e visitando lugares. Enriquece o bornal objetivo do viver. A jornada, por sua vez, é o caminho da transcendência, desloca-se no íntimo do mistério existencial, e acrescenta ao mundo subjetivo a necessidade de outros territórios, outros caminhos, infinitos desafios às peregrinações do ser. Assim sendo, é permanência, é presença que não se extingue nunca, não tem estação de chegada, mas o perquirir, o ingente chamado dialético da dúvida. O desejar o sempre adiante.

Compelido por esta missão e tangido por meus sentimentos, procurarei falar do homem José Fernandes, de pequenos traços de sua grande vida, tão fortes e agudos esses traços, que não desaparecem no delíquio do mistério e do encantamento.

 

O menino José Fernandes deixou a fazenda de seu seus pais, em Alto Rio Doce, Minas Gerais, para estudar, aos 13 anos de idade. Graduou-se em Letras na PUC do Paraná, Graduou-se em Filosofia pela Studiam Theologicum do Paraná, ascendeu ao grau de Mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina, Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor de Letras da Universidade Federal de Goiás, entre outras atividades acadêmicas e ministeriais. Escreveu dezenas de livros de crítica, ensaio, crítica e poesia. Residia em Goiânia há 37 anos, onde com sua esposa Sonia Salette Fernandes, criou seus filhos Ana Carina Fernandes e Thiago José Fernandes, contemplou os netos e agasalhava momentos de poesia, convívio e reflexão em seu “Refúgio do Poeta” no vizinho município de Santo Antônio.

Em sua larga bibliografia destacamos: A Polifonia do Verso, 1978; O Poeta da Linguagem, 1983; O Poeta do Pantanal, 1984; O Existencialismo na Ficção Brasileira, 1966; a Loucura da Palavra, 1987; Dimensões da Literatura Goiana, 1992; poema Visual, 1996; Técnicas de Estudos e Pesquisas, 1999; Cicatrizes para Afagos, 2001; O Selo do Poeta, 2005; Agua Mole, 2005, entre outros.

Pelos êxitos acumulados em sua jornada, José Fernandes nos surpreende ao antecipar-nos nas águas do rio do mistério. Sua saída, no entanto, apenas reafirma o alto sentido de sua jornada “…sua situação fundamental do homem como existência encarnada, isto é, como ser vinculado carnalmente à realidade concreta…” (G. Marcel), onde se vislumbra a prevalência do ser sobre o ter. Afirma o filósofo parisiense que o corpo é uma categoria ontológica original: “manifesta-se como uma experiência de mistério. Eu não tenho um corpo, mas sou meu corpo, aberto à possibilidade de alteridade e da transcendência”. Para ele a encarnação é o dado central da metafísica. “O ser encarnado é a condição de acesso ao real e referência central da reflexão metafísica,” ao coração da transcendência. Em José Fernandes, em sua jornada, saúdo o fenômeno de sua presença (Heidgger), cumprindo no âmbito fenomenológico da existência, as pletoras de sua encarnação.

Diviso o homem/espirito José Fernandes num périplo ontológico no caminho do verbo, da linguagem e da fala. Expendeu sua corporalidade/noológica na busca da expressão de seus estados emocionais, racionais e oníricos, desvelando os sentimentos, as pletoras sociais e a dimensão profunda do imaginário. Verbalizou sua experiência pela falação, pois a fala, na lição de Heidgger é o fundamento ontológico-existencial da linguagem. E esta a exteriorização fenomenológica do ser e sua identidade; existencialmente, é também, “a disposição ao compreender.

José Fernandes viveu da palavra, do verbo que instaura a tragédia consentida ao ser humano em sua romagem espírito-corporal. Assim, pode experimentar a morte dos outros e “apreender toda presença,” mergulhado e participante da inteira experiência humana. Sendo que a “essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida”. A morte, para Heidgger, depende de algo fundamental na presença. “Chamamos finar o findar do ser vivo. A presença “possui” uma morte fisiológica, própria da vida.”  A presença não alcança finar-se. A presença nunca tem fim. Assim, concluímos que a vida do corpo/espírito é toda possibilidade do ser encarnado, todo seu vir-a-ser, toda sua abertura para o subjetivo, para o outro e para o mundo.

Surpreendemos, portanto a presença na existência de José Fernandes vocalizada, primeiro em suas próprias palavras em artigo publicado na Revista da Academia Goiana de Letras em seu número 32 de 2017: “Os rituais relacionados à morte se constituem de festas e de lágrimas. Festas, quando o morto teve uma vida longa e feliz; lagrimas, quando se morre novo ou de forma trágica.”, e ainda: “… toda viagem (jornada) seja nos relatos míticos seja no texto ficcional, implica uma transformação que se opera tanto no nível físico, quanto, sobretudo, em nível simbólico, metafísico. No nível metafísico, sempre ocorre uma travessia, uma passagem para um novo estado de ser.” A dicção de José Fernandes denota conhecimento e identidade com a larga compreensão do personalismo de Mounier e de outros pensadores do existencialismo cristão.

Em muitas coisas coincidente com o pensamento de Gabriel Marcel, o também existencialista cristão Emmanuel Mounier, ciente da abertura do ser para o outro e para o mundo, como condição de plenitude e atualização, enuncia: “Quase poderia dizer que só existo na medida em que existo para o outro, no limite: ser é amar.” Em seu personalismo existencialista ensina que a pessoa é o ser direcionado para o outro em atitude dialogal na comunhão pessoa-comunidade, dentro de uma originalidade humanizante, onde Deus é pessoal e transcendente consagrando a centralidade da pessoa.

Ao cessar a existência incorporada, “a fortuna é que o que lhe fica quando despojou de tudo o que tinha – o que lhe fica é a hora da morte.” (Mounier). Desta forma, para o pensador personalista “A vida é uma aventura aberta, exposta. Não protejam as crianças. Fortifiquem-nas interiormente para que brinquem com qualquer espécie de brinquedo.”, isto é: tenham qualquer ou todas as experiências e aventuras.

Nos passos do pensamento existencialista cristão, compreende-se que no findar-se a vida terrena segue a romagem apenas o homem. Vai o professor, o poeta, o crítico literário. Penso que sua substância, sua humanidade demorada no espirito/matéria seja, na transcendência, recebida pelas mentes que demoram na memória dos homens. Ah, possa ele encontrar Virgílio, Sócrates, Epicuro, Horácio, Dante, Petrarca, Camões, Drummond, Pessoa, Guimarães Rosa, M. Bandeira, Yêda Schmaltz, José Décio, Carmo Bernardes, Bernardo Élis e muita gente mais, que o distraia das misérias deste mundo de homens sem rostos e sem vísceras. Sei que o país para onde vai é puro mistério. Sei que, como homem de fé e cristão, sonhava com essas paragens celestiais e de operosa contemplação perene, como o continuar de sua jornada no “enquanto” da terra, carregada de esforços, virtudes, estudos e valores.

No findar seu dia terreno entrou despojado de teres, a não ser aqueles imprescindíveis a sua existência e a dos próximos. Todos dão notícia de seu desapego, a generosidade com que repartia seus haveres, todos de invisível materialidade. Seu conhecimento, generosidade, compreensão e piedade que contagiaram seus amigos, colegas e discípulos. Não foram poucas as expressões de carinho, admiração e respeito circulando nas rodas de conversas letradas em seguida à sua morte. De outro lado, brilharam nas redes sociais as referências de admiração por seu conhecimento e sabedoria. Recordavam sua presença aí também nesses meios eletrônicos onde, frequentemente, postava seus poemas de competente lavra, profundidade, conhecimento da língua portuguesa e das técnicas da linguagem poética. A todos, fossem poetas iniciantes ou consagrados, dirigia palavras de admiração e estímulo.

Talvez transite agora no lugar onde vigem o amor e as altas estrelas, ou no seleto cenáculo dos que são convidados à ágape dos deuses, descansando das atribulações deste mundo, tão pequeno para tão grandes sofrimentos.

Em razão de, com o tempo ir perdendo a fé, ou nunca tenha desfrutado a graça de tê-la, com o pouco que me resta, e com palavras de altas mentes alheias, tremo diante da futura vida de eternidades. Nesses mundos de tantas promessas e vária utopia deve haver vidas que nossas vidas, por precárias, não compreendem. Para mim o além é território de cegante luz e insondável abismo, que alumbra e confunde a mente, no absurdo de Deus.

Fico apenas no umbral imaginando felicidades. Me anima um leve e possível sonho de compreensão. Fico pequeno ante o portento dos deuses que, não existindo, manejam as vidas e os destinos dos homens. Como não sei a linguagem dos anjos nem o célico dialeto, paro frente ao seu livro heráldico e indecifrável. Atemorizado. Não ouso sondar essas instâncias de interrogação e sonho. Nesse mapa etéreo, do Professor José Fernandes, não sondo as romagens da morte, nem seus caminhos, nem seu possível canto, nem seu humano afeto, nem sua santa pedagogia. Falo apenas nesta palavra de homenagem- tão pobre e sem lustro- do ser humano, do mestre e escritor que conheci.

Falo, amigos meus, de sua vida de dias e anos por aqui. Falo do ser humano, do amigo, do intelectual, do homem de família de sonho e fé que conheci. Compartilhamos pão, poesia e algumas taças de vinho. De sua vida sei que arrostou duros trabalhos para construir-se. Que se transformou num mestre paciente e culto, generoso em repartir os conhecimentos através dos dias, nem sempre donairosos e gentis para com ele. Sei de sua cordialidade, sempre disposto a atender alunos, consulentes e amigos.

Tinha sempre uma palavra de estímulo na leitura de textos, na redação de artigos críticos, prefácios e ensaios, reservando sempre disponibilidade para a construção de poemas profundos em sofisticado e criativo manejo da língua portuguesa. Conhecedor do latim e do grego, ainda há pouco me socorreu numa consulta sobre a língua de Cícero. Isso faz notícia de sua vasta obra de escritor, pesquisador e crítico, parte dela guardada nos vários livros que publicou. Boas lembranças me confortam de nosso conhecimento. O convívio dos filhos, o encanto dos netos, o carinho dedicado à esposa, tão em sacrifício de saúde nos últimos dias.

Olhando daqui, do momento em que fecham se as cortinas de sua lúcida existência, olho como olharia Emanuel Mounier, ou Gabriel Marcel. A morte é que dá sentido à vida. É nossa maior oportunidade. Somente eu posso morrer de minha morte. Fecham se as cortinas desta jornada, encerra-se o espetáculo terrenno com seus atores, dramas e enredos. A plateia se calará ou se levantará em gritos, assobios, vivas e “bravos!” À gloriosa encenação de José Fernandes, em todos os atos de seu épico drama, nós nos levantamos, louvamos e aplaudimos, pedindo que retorne à cena ainda vezes sem conta.

Enfim, proclamamos nosso júbilo com estridentes e agradecidos gritos, com vibrantes e sonoros “vivas”. As cortinas se fecham brevemente para reabrirem-se em palco coroado de louros e de flores. Este foi o amigo que conheci. É dele que falo. E mesmo querendo não morrerá. Viverá gentil e sábio em sua obra, na memória de sua família e de seus amigos. De agora em diante lúcido, pleno e no convívio do bem, do belo e do vero goza o eterno desfrute da transcendência, no contínuo do movimento, homo viator, flecha partindo atrás da flecha eterna, no dizer de  Teillard du Chardin.

Como homenagem à sua existência tão plena, de tanto verbo e tantas palavras, presto a homenagem em nome desta Academia em augúrios que fariam seus amigos, seus familiares, seus devotos e pios antepassados em amoroso responsório.

Fala o seu Deus e Deus de seus pais, de boca inumerável: A mim, mesmo que finda a vida, seguirá José Fernandes vivendo em transcendência;

anjos alados, músicos metafísicos, vinde ao abraço do homem justo e bom, José Fernandes. Acolhei-o à presença da sempiterna Verdade;

o Filho o chamou de suas alturas. Que seus acólitos, os anjos, o conduzam ao regaço do Patriarca;

acolhei, celestes criaturas, seu corpo/espirito, levando-o à fonte inesgotável do sumo bem;

dai-lhe, ó Fazedor de almas, homens e mundos o repouso no concerto iluminado das altas esferas;

acolhei seu corpo-essência, levando-o ao Sumo Transcendente;

para ele brilhem os campos de Alto Rio Doce, cantem seus pássaros, brinquem em cirandas quérulas suas crianças;

para ele frutifique o verbo, a miríade de boas palavras, os encantamentos do materno lar e o abraço dos seus avós;

para ele, brilhem os pirilampos da terra e as altas estrelas;

acobertem-no com o manto de palavras, de cantos de ninar, de murmúrios de fontes, os solfejos do amor e o chilrear dos berços;

encontrem-no os passos e a marcha dos justos, longe das almas negras e corruptíveis;

acalentem seu sono as belezas do mundo, o coro dos irmãos e as palavras de mel com que são recebidos os pródigos e os filhos chegantes. Palavras de Pais, palavras de irmãos, palavras de filhos e cantigas de mãe.

deem-lhe o descanso das asperezas do dia, despertem-no para a luz e o esplendor das alvoradas.

Nós, que ainda restamos, lhe dizemos, amigos, com estas aéreas palavras: Confrade, Professor José Fernandes,

Ate breve!

Aos confrades acadêmicos,

aos amigos presentes

e, de modo especial, aos familiares do Professor José Fernandes,

meu muito obrigado.

 

Goiânia, 12 de abril de 2018

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