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Eurico Barbosa dos Santos

Eurico Barbosa é escritor. Sucedeu o acadêmico Francisco de Britto.


Data de nascimento: 03/03/1933

Data de posse: 31/10/1996

Cadeira Nº 13

Posição: 3° ocupante

Indisponível.

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DISCURSO DE RECEPÇÃO AO ACADÊMICO ITANEY CAMPOS

A existência de instituições significativas da produção literária ou artística dos seus integrantes, diferentemente do ciclo vital da pessoa humana e outros seres, se pereniza pela sucessão dos componentes atingidos pela implacabilidade do termo da vida.

A 8 de novembro do ano próximo passado – quase precisamente há um ano – a Academia Goiana de Letras se enlutava pela perda de César Baiocchi, belo escritor e figura humana admirável. Sucede-o Lena Castello Branco Ferreira de Freitas, historiadora, ensaísta, poetisa e contista, eleita em 31 de março e empossada em 9 de junho.

Um mês após o falecimento de César Baiocchi, nosso sodalício perde o ocupante da cadeira n° 30, o quase secular Humberto Crispim Borges, a quem a literatura goiana deve o contributo de grande produção – grande tanto sob o aspecto quantitativo quanto pelo mérito da qualidade. Sua vaga vem a ser preenchida com a eleição por unanimidade ocorrida no dia 5 de maio do historiador e ensaísta Nashr Chaul. O sucessor de Humberto Crispim viu-se empossado no dia 8 de setembro.

Não haviam sido decorridos dois meses da morte do autor de Retrato da Academia Goiana de Letras, e eis que ocorre uma terceira vacância. Morre na capital do Estado do Tocantins, onde se radicara há vários anos, Mário Ribeiro Martins, titular da cadeira n° 37. Em sessão especial, a 11 de agosto, sagrou-se eleito o escritor  Itaney  Francisco  Campos.

O novo confrade é goiano de Uruaçu, no extremo norte do Estado antes da criação do Estado do Tocantins e hoje Município do Médio-Norte goiano. Foram ancestrais dele que fundaram a sua cidade natal, cuja história é magnificamente contada por seu pai, Cristovam Francisco de Ávila, promotor e procurador de Justiça aposentado, hoje com a idade de 96 anos, em livro minucioso e bem escrito, intitulado A família Fernandes e a fundação de Uruaçu – Reminiscências.

O brilhante desembargador e novel acadêmico fez  seus estudos fundamentais na cidade em que nasceu, o ensino médio nos seminários Santa Cruz, em Goiânia; e Nossa Senhora de Fátima em Brasília.

Aos 23 anos graduou-se em Direito pela Universidade Católica de Goiás. Cursou dois anos de letras vernáculas na Universidade Federal. Nos três anos seguintes à formatura, exerceu a advocacia na região de que Uruaçu é o centro principal. E também o magistério, como professor de Redação e Expressão e Inglês. Nos anos de 1978 a 1981 foi auditor da Delegacia Regional do Trabalho em Goiás. Em seguida a esse quadriênio ingressou na magistratura estadual. O marco inicial dessa trajetória na judicatura foi a comarca de Formoso, na qual permaneceu por quatro anos. As comarcas seguintes foram as de Mara Rosa – em que serviu por dois anos; e Santa Helena de Goiás, na qual a permanência foi de cinco anos. Em 1992, por merecimento, houve a sua promoção para Goiânia. Em julho de 2008 viu-se elevado à Desembargadoria. Antes, a partir de 1999, já substituíra com frequência magistrados da mais alta Corte de Justiça do Estado. E lá se encontra, dignificando a toga em plano mais alto.

A vocação de Itaney Campos para as Letras projetou-se com a publicação em 1985 de Notícias Históricas do Bairro de Campinas, cujo conteúdo, em estilo que bem revela o seu talento, se esteia em considerável bibliografia.

O prosador se evidencia já nesse livro de estreia; e nas obras Antônio Theodoro da Silva Neiva – Um escorço biográfico, Orações no templo da Justiça; Escritos Dispersos; e na produção ficcional representada por contos breves publicados em volume de vários autores.

No discurso de posse no Tribunal de Justiça o estilo do escritor que hoje se empossa nesta Academia é vigoroso, projetor de uma linguagem marcada por bela construção verbal:

“Não é fácil, certamente, ser juiz criminal em um país que apresenta índices espantosos de violência e um quadro dantesco de desigualdade social, ninho das serpentes do medo e da insegurança que rodam os segmentos da nossa sociedade. Não pode o magistrado criminal refugiar-se, assim, nas considerações retóricas do cientista social, nem nos devaneios líricos do cultor da poesia. Seu ofício é áspero e angustiante, pois lhe compete infligir a pena, pesa-lhe a grave responsabilidade de exercer a tarefa punitiva do Estado, atendendo aos reclamos da finalidade  retributiva  da sanção, exercendo em concreto, o monopólio estatal da violência contra os transgressores dos valores hegemônicos. […] Nos mares tormentosos do comportamento humano, cumpre ao magistrado conduzir-se, porém, como o navegante prudente, que se guia pelas luzes seguras do farol constitucional, direcionadas pelo princípio do respeito à dignidade da pessoa humana”.

Há também o pitoresco nos escritos de Itaney. Bom exemplo o texto de A literatura e a magistratura goiana:

“A abordagem do tema do vínculo entre a judicatura e o ofício de escrever, considerada sob o aspecto cronológico, obrigaria o estudioso a mencionar a figura pitoresca do grande escritor romântico Bernardo Guimarães, autor de “A escrava Isaura”. Pouco depois de formado, em 1852, em São Paulo, Bernardo transferiu-se para Goiás, a fim de exercer o cargo de Juiz municipal da Vila Catalão. A liturgia do cargo não merecia dele qualquer deferência. Antônio Carlos Olivieri, biógrafo do escritor, relata que, longe de portar-se como um grave e sisudo juiz de Direito, Bernardo adotou uma vida de verdadeiro matuto, no interior de Goiás. Consta que um amigo, de passagem por Catalão, pretendia hospedar-se na casa de Bernardo, mas desistiu ao ver a bagunça em que o juiz morava. “Bernardo não oferecia ordem nem asseio, mas fumo, boa pinga,  uma viola, pescarias e caçadas”. Em 1858, transferiu-se ele para o Rio de Janeiro, onde atuou como jornalista, retornando para Goiás em 1861, novamente como Juiz Municipal e depois Juiz de direito. “Data desse ano o seu ato mais ousado como representante do Poder Judiciário. Estando a cadeia pública abarrotada de gente presa por infrações de pouca importância, ele absolveu e libertou todos os prisioneiros num julgamento sumário.”. Foi processado e perdeu o cargo de magistrado, voltando, então, para o Rio de Janeiro. Escreveu, a partir de então, os seus principais romances: “O ermitão de Muquém”; “O Seminarista”; “O garimpeiro” e, em 1875, sua obra mais famosa, “A escrava Isaura”. Bernardo escreveu também o livro de poemas “Cantos da solidão”, além da poesia de caráter satírico e erótico, estranha ao gosto literário oficial da época. Um juiz complacente, sem dúvida, mas um genial escritor romântico-sertanista.

Itaney incursiona também pela poesia. Sua expressão poética é louvada no prefácio de sua obra Inventário do Abstrato. Nele o Dr. Floriano Gomes da Silva Filho ressalta que se trata de poesia feita de ritmo. Palavras do prefaciador:

“Inventário do Abstrato, livro de poemas de Itaney Campos, mostra palavras que se unem para dar ritmo especial ao discurso lírico e o ritmo em questão o poeta obteve em virtude de haver conseguido com felicidade, trilhar o caminho da simplicidade, com a eliminação de todos os excessos retóricos.

Aproxima-se, no estilo quase sempre enxuto, da prosa cristalina de José J. Veiga que, não obstante incursionar pelo fantástico e pelo absurdo o fez trabalhando em texto despido de explosões gongóricas. O poema exercícios é o exemplo maior da frugalidade com que Itaney manipula seu instrumento de trabalho.

Ainda Floriano Gomes:

O poema de abertura – Infância – é uma preciosidade. Descreve a casa da infância, de janelas “altas e paralelas” que provocam o medo pelo que vai do lado de fora, do mundo que gira depois da janela, cheio de “entulhos e detritos” entrevistos pelas frestas da porta e que “diziam da morta” desconhecida. De dentro da casa ouvir-se-iam ruídos vindos de fora e até de passos perdidos no interior da própria morada.

“Monótono e plangente

O prato da chuva

Na calha, uma viúva

Vagava soturnamente”.

A boa poesia do novo confrade se encontra também no volume de Iluminuras do Signo, ao lado de doze poetas bem inspirados. Vale ser   transcrito  o  poema  de  Itaney

intitulado: “Um homem quando mata”:

“Um homem, quando mata outro homem,

viola a esfera dos deuses,

penetra no reino obscuro

desse gesto absoluto

e se incorpora a si mesmo

a ausência imanente do outro

atravessada em sua existência

como se fora uma faca

encravada em sua costela.

Incorpora ao seu nome o sobrenome

do morto, e quando come,

se alimenta da mesma fome

do outro, Quando bebe, bebe a sede

do semelhante rompido.

Os olhos cerrados do morto

vigiam os passos do insensato

e sua vida cresce nas sombras

sob os gritos perdidos do finado.

O remorso segue ao encalço

do seus passos claudicantes.

O medo como erva daninha

prolifera em seus pensamentos,

Em sua fala de todo momento

escuta a voz de quem calou.

Um homem que mata destrói

no outro um pouco de si mesmo,

segue pelos círculos a esmo

como Prometeu cego e pendido

ao peso da sombra do morto.”

Trata-se de poesia de ótimo nível, portadora dos elementos indispensáveis à versificação de qualidade, sensibilizadora.

Na história da literatura nos seus diversos planos – universal, nacional, regional – assinala-se a ocorrência de um privilégio: que ouso denominar  “consanguinidade literária”. Na literatura francesa tal  consanguinidade  é expressa verbi gratia por dois expoentes do romance – Alexandre Dumas pai e Alexandre Dumas filho. Na literatura  brasileira, vários casos: José de Alencar e seu filho Mário de Alencar, José do Patrocínio e Patrocínio Filho, os irmãos Aluísio e Artur Azevedo, Érico Veríssimo e o filho Luiz Fernando Veríssimo, Graciliano Ramos pai de Ricardo Ramos que por sua vez é pai de Ricardo Ramos Filho, Alphonsus de Guimaraens e Alphonsus de Guimaraens Filho.

Na literatura goiana:

Os irmãos Gilberto e José Mendonça Teles. A mãe, deles, dona Celuta Mendonça Teles foi também poetisa; Antônio Eusébio de Abreu pai de Americano do Brasil, Colemar Natal e Silva, sua mãe Euridice Natal e Silva, suas filhas Moema de Castro e Silva Olival e Mariza de Castro e Silva; Augusta Faro Fleury Curado filha de Augusto Fleury Curado e neta de Sebastião Fleury Curado; Paulo Goulart pai de Helvecio de Azevedo Goulart e Diva Goulart; Pedro Ludovico Teixeira (que foi partícipe da fundação desta Academia e deixou um livro de memórias) e seu filho Mauro Borges, que ocupou a cadeira n° 15  desta  Casa; Rosarita Fleury, mãe de Maria Elisabete Fleury, atual presidente da Academia Feminina de Letras e Artes (AFLAG), Afonso e Domingos Félix de Souza; e a filha deste, Maria Lúcia Félix de Souza; Manoel Lopes de Carvalho Ramos pai de Hugo de Carvalho Ramos e Vitor de Carvalho Ramos, Benedito Odilon Rocha pai de Hélio Rocha, Erico Curado, pai de Bernardo Élis, genitor de Ciro Curado; Bariani Ortêncio, pai de Nancy Bariani Ortêncio; os irmãos Geraldo Coelho Vaz e Braz Coelho; os irmãos José e João Asmar; Xavier Júnior e seu irmão Guilherme Xavier de Almeida; Floriano Gomes e seus filhos Modesto Gomes – saudoso presidente desta Casa – e César Gomes, presidente da Academia de Letras de Paraúna e Floriano Gomes Filho.

Itaney Campos se insere nessa singularidade. Recentemente, ou seja, no último 22 de setembro sua filha Raquel Campos fez o lançamento, aqui em Goiânia, de sua obra intitulada Entre ilustres e anônimos a concepção de história em Machado de Assis. Raquel é excelente escritora, seu livro consubstancia admirável pesquisa e percuciente análise da obra machadiana e seu estilo é brilhante. É também escritor o filho de Itaney – Mateus Machado de Carvalho, diplomata de carreira ora em função em Moçambique. Vários dos seus contos figuram nas páginas de Hector no Cubo e outros contos. Mateus tem um blog de contos e poesias.

Como já mencionado neste pronunciamento o pai de Itaney Campos é historiador e produz textos diversos ainda nos seus 96 anos. O livro histórico de Cristovam Francisco de Ávila – A família Fernandes e a fundação de Uruaçu é trabalho de mestre.

Senhoras e Senhores:

Contrapondo-se a anátemas dirigidos contra a Academia Francesa por intelectuais do porte de Voltaire e Flaubert, o escritor Pierre Mille fez esta formulação em sua obra intitulada O Escritor:

“A Academia Francesa fica, diga-se o que se queira, uma linda pluma no chapéu da comunidade francesa. Ela faz algum bem e mal nenhum. É conhecida, pelo menos de nome, do último dos camponeses e dos operários. É a prova antiga, e sempre viva aos olhos deles de que existem em nosso país outros poderes além do dinheiro e da política. E isso não é pouco.”.

Pierre Mille está a se referir certamente aos poderes das ideias, do pensamento, da inteligência. E em verdade a Academia Francesa, a mais antiga das cinco Academias que constituem o Instituto de França, criada em 1635 por Luís XIII, a pedido de Richelieu é, tanto na França como universalmente reconhecida como instituição modelar.

A Academia Brasileira de Letras tomou-a por modelo e sua fundação tem a sua história revestida de fatos singulares. O primeiro a tomar a iniciativa de se ter uma corporação de escritores no Brasil foi Medeiros e Albuquerque, que sugeriu, em 1889, a Aristides Lobo, ministro do Interior do Governo Provisório, a criação da Academia de Letras. O Governo Provisório não teve interesse pela ideia. Mas em 1896 o escritor Lúcio de Mendonça iniciou junto a Alberto Torres, ministro que sucedeu a Aristides Lobo um trabalho de sua pertinácia em favor da organização de um instituto literário que tivesse a proteção oficial. Conta Humberto de Campos – que foi um dos acadêmicos mais atuantes – que “A atuação de Lúcio de Mendonça em novembro de 1896 está hoje esclarecida e documentada. A corporação por ele ideada denominar-se-ia também Academia de Letras, e, de acordo com o primeiro plano elaborado, compor-se-ia de quarenta membros, como a Academia Francesa, sendo, porém, trinta efetivos indicados pelo governo e dez correspondentes eleitos por aqueles. Esses correspondentes seriam brasileiros residentes nos Estados ou no estrangeiro”.

O grande cronista de Sombras que sofrem prossegue:

“Essa fórmula encontrou, todavia, objeções entre os homens de letras mais em evidência no tempo. Alguns  havia, monarquistas como Joaquim Nabuco, Afonso Celso e Carlos de Laet, que se não conformariam em receber um título de nomeação partido de autoridade republicana. Outros, republicanos, mas adversários do governo, não pretendiam capitular entrando em relações com ele. O governo, por sua vez, teria escrúpulos em reconhecer oficialmente o mérito literário de inimigos infatigáveis, que o atacavam, então, com armas terríveis, na Tribuna e na Imprensa. A República, não obstante o esforço militar de Floriano, estava ainda insegura; a restauração acendia esperanças nos antigos partidários do trono; as paixões dominavam os homens de espírito e responsabilidade, tornando-os irreconciliáveis; tudo, enfim, contribuía para impedir um congraçamento, mesmo no terreno neutro da literatura.”

Lúcio de Mendonça não era, no entanto, vontade que se detivesse diante de dificuldades, embora dessa ordem. Para vencê-las, apresentou outro alvitre, que consistia em uma nova divisão das cadeiras acadêmicas: elas continuariam a ser quarenta, mas o governo preencheria apenas dez para as quais seriam nomeados por decreto, Machado de Assis, Araripe Júnior, Lúcio de Mendonça, Sílvio Romero, Coelho Neto, Artur Azevedo, Valentim Magalhães, Inglês de Souza, Rodrigo Otávio e José Veríssimo. Estes, por seu turno, elegeriam vinte companheiros.

O decreto de criação da Academia não se concretizou. Não nasceu assim no Brasil uma Academia de Letras com o estigma de instituição oficial. Felizmente essa frustração não arrefeceu o entusiasmo de Lúcio de Mendonça.

Diz Humberto de Campos: “Perdida a esperança de oficialização do instituto com a saída, meses depois, de Alberto Torres do Ministério, tratou Lúcio de Mendonça de organizar a Academia como instituição particular. Ele queria mostrar, e mostrou que o pensamento, para triunfar prescinde da chancela dos governos. José Veríssimo, já interessado na ideia, ofereceu para as reuniões preparatórias, a sala de redação da Revista Brasileira, de que era diretor. Lúcio de Mendonça convocou os companheiros para aquele local. Responderam ao seu apelo, ali comparecendo desde o primeiro dia os seguintes: Machado de Assis, que foi aclamado presidente; Artur Azevedo, Araripe Júnior, Coelho Neto, Filinto de Almeida, Graça Aranha, Guimarães Passos, Inglês de Souza, Joaquim Nabuco. José do Patrocínio, José Veríssimo, Luiz Murat, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Pedro Rabelo, Rodrigo Otávio, Silva Ramos, Teixeira de Melo, Valentim Magalhães e Visconde de Taunay.  Estes, com ele, Lúcio, elaboraram o Regimento Interno, e convidaram, para continuação dos trabalhos, Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Alcindo Guanabara, Carlos de Laet, Garcia Redondo, Pereira da Silva, Rui Barbosa, Sílvio Romero e Urbano Duarte. Esses trinta elegeram os dez que faltavam para perfazer o número legal de quarenta fundadores, e que foram Aluízio Azevedo, Barão de Loreto, Clovis  Beviláqua,  Domício  da Gama, Eduardo Prado, Luiz Guimarães Júnior, Magalhães de Azeredo, Oliveira Lima, Raimundo Correia   e Salvador de Mendonça.

Estava assim, fundada e completa a Academia Brasileira de Letras, que, a 20 de junho de 1897, se instalava, com todo o cerimonial, no edifício do  Pedagogium, empossando, então, a sua primeira diretoria, composta de Machado de Assis, presidente: Joaquim Nabuco, secretário-geral; Rodrigo Otávio e Silva Ramos, secretários; e Inglês de Souza, tesoureiro.

A árvore estava plantada. Ia, daquela hora em diante, “florir e frutificar”.

Senhoras e senhores:

Em 28 de março 1939 realizava-se no salão da Procuradoria Geral do Estado a primeira reunião com a finalidade de discutir a ideia de fundação de uma entidade a associar os principais representantes da literatura goiana. Presentes estavam Colemar Natal e Silva, Vasco dos Reis, Vitor Coelho de Almeida, Luís do Conto, Guilherme Xavier de Almeida, Dario  Dério  Cardoso e Mário Caiado.

Colemar Natal expôs os objetivos da reunião: congregar todos os legítimos valores da intelectualidade goiana em torno do escopo da fundação e organização de uma Academia Goiana de Letras.

Registrou-se  aprovação geral.

Embora inspirada no modelo da Academia Brasileira, resultou decidido que o cenáculo goiano teria 21 membros titulares e, naturalmente, igual número de patronos. Na segunda reunião, a 1º de abril, aprovou-se o estatuto elaborado por  Colemar  Natal e Silva. Duas outras reuniões preparatórias se realizaram até que no dia 29 de abril, no salão nobre do Palácio das Esmeraldas ocorre a instalação da Academia Goiana de Letras. Convidado a presidi-la o Sr. Pedro Ludovico  Teixeira  declara “que não se considerando cultor das belas letras declinava de tão alta e honrosa vestidura, agradecendo a distinção da escolha. Entretanto se mantinha na presidência, apenas honorifica da sessão como sinal de solidariedade  a  ideia  em  marcha”.

Em seguida empossou-se a diretoria eleita – Colemar Natal e Silva e Vasco dos Reis Gonçalves 1º e 2º vice-presidentes; Dario Délio Cardoso e Vitor Coelho de Almeida; 1º e 2º oradores; Albatênio Caiado de Godói e Joaquim Ferreira dos  Santos Azevedo, 1º e 2º secretários; Mário de Alencastro Caiado, tesoureiro; Augusto Ferreira Rios, sub-tesoureiro.

A 4 de março de 1940 o escritor Malba Tahan profere conferência na Academia. A 19 de março é ampliado para 25 o número de membros da entidade. A 19 de fevereiro de 1970 o número de acadêmicos é aumentado para 30, numa sessão em que se aprovou também o ingresso da mulher na Academia.

Somente em 1977 a AGL tornou-se colegiado de quarenta componentes titulares.

Sem ter sede própria a AGL desde a sua fundação reunia-se ora no salão da Procuradoria Geral ora em residência de acadêmico. Em 1972 a Organização Jaime Câmara & irmãos cedeu-lhe a sala n° 905 – 9º andar do Edifício Vila Boa.

Apesar de todas as suas dificuldades e vicissitudes a Academia  promoveu, com enormíssimo  êxito, em 1972, na presidência de Ursulino Leão, o 1º Encontro Nacional de Academias de Letras do Brasil. Compareceram as congêneres do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília, do Acre, de Mato Grosso, do Espírito Santo, do Amazonas, do Pará, do Rio Grande do Norte, do Maranhão, do Estado do Rio, de Santa Catarina, do Paraná, do Triângulo Mineiro, de Teresópolis, de Campinas, do Rio Grande do Sul, do Piauí, a Feminina de Letras e Artes de Goiás além de delegados do Conselho de Cultura Federal e representantes da Federação das Academias de Letras do Brasil e grande número de intelectuais e jornalistas. Esse encontro teve abertura no dia 20 de abril e se encerrou no dia 24. Nele Aurélio Buarque de Holanda proferiu conferência acerca do quarto centenário de Os Lusíadas. Também foram conferencistas os acadêmicos Bernardo Élis, Gilberto Mendonça Teles e o professor Artur César   Rios,  este    sobre   Sesquicentenário da Independência. Houve uma excursão à Vila Boa e uma visita à Pousada de Água Quente de Caldas Novas.

Somente em 1987 a Academia Goiana de Letras passou a funcionar, em regime de cessão, na casa que o governo Henrique Santillo adquiriu de Colemar Natal e Silva, situada na esquina das ruas 20 e 15. Lá está desde então a nossa entidade, que, impedida inclusive de funcionar, passa atualmente, graças  a  notável esforço da presidente Lêda Selma junto  a empresários, que contribuíram com 250 mil reais para esse fim, por muito necessária reforma que se espera concluída no já bem próximo mês de janeiro. Todos os acadêmicos esperamos que em fevereiro de 2017 nossa Casa volte a ser palco das nossas reuniões. A AGL é também proprietária de magnífico terreno a ela contíguo, destinado à ampliação da sede. Sua aquisição se deve ao prefeito Iris Rezende que em 2009, com aprovação da Câmara Municipal, fez doação de 350 mil reais para a finalidade específica daquela compra.

Acadêmico Itaney Campos:

Sua candidatura a uma cadeira da Academia Goiana de Letras significou a sua admiração e seu apreço pela nossa entidade. Sua eleição, pela unanimidade dos trinta acadêmicos que compareceram à sessão do dia 11 de agosto significou a recíproca: interpretou o conceito que temos todos da sua personalidade, como homem de letras, como magistrado, como cidadão. Esta Academia comemorou em 28 de abril deste ano o seu septuagésimo sétimo aniversário de fundação. Nossa instituição tem, como já afirmado no presente pronunciamento, por modelo a Academia Brasileira de Letras. Semelhantemente, uma trajetória de luta difícil, árdua e também de triunfo, guardadas, obviamente, as devidas proporções.

Sua presença aqui, acadêmico Itaney, representa a certeza de mais um atuante companheiro solidário no esforço pela afirmação de produtividade e vitalidade desta Academia, cujos membros se empenham por uma produção literária incessante, atestada por lançamentos em todos os anos de obras dos mais diversos gêneros. E também pela presença constante na imprensa, tanto que um grande número de acadêmicos colabora quinzenal, semanal e até bissemanalmente  com artigos e crônicas nos dois diários desta capital. Registro aqui, desculpando-me por alguma omissão involuntária, que Ursulino Leão, Bariani  Ortêncio,  Alaor Barbosa, Hélio Moreira, Aidenor Aires, Emílio Vieira, Martiniano J. Silva, Luís Augusto Sampaio, Itami Campos, Hélio    Rocha,    Luiz   de   Aquino, Licínio  Barbosa, Ubirajara  Galli, Gabriel Nascente, Brasigóis Felício são   permanentes ou frequentes colaboradores, a focalizar com enorme talento a história, os costumes, o folclore, os fatos enfim que se projetam em textos úteis à informação e a conscientização do público leitor.

Seu ingresso nesta Academia significa, pois, escritor Itaney Campos, que mais um grande homem de letras dará a contribuição do seu talento às responsabilidades deste Cenáculo para com a afirmação da vitalidade cultural do nosso Estado.

Seja bem-vindo!

Muito obrigado a todos.

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