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Getúlio Targino Lima

Getúlio Targino é escritor. Sucedeu o acadêmico Dario Délio Cardoso.


Data de nascimento: 05/08/1941

Data de posse: 10/11/1988

Cadeira Nº 06

Posição: 2° ocupante

Indisponível.

Indisponível.

Discurso de Posse na Cadeira nº 6 da Academia Goiana de Letras, proferido em 1º de dezembro de 1.988, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

 

A FORÇA DA PALAVRA NA IMORTALIDADE ACADÊMICA

 

“El mundo de las luciérnagas

ha invadido mis recuerdos.

Y um corazón diminuto

me va brotando em los dedos” (1)

 

 

                        Senhores Acadêmicos

Foi preciso esperar o momento certo, o tempo justo, a vibração exata para que pudesse, na linguagem de Garcia Lorca, ver um coração diminuto brotar entre os dedos, estes dedos nervos, caminheiros dos universos que as teclas negras de u’ma máquina antiga de escrever ocultam e revelam.

Não se pode, assim, temerariamente, bater à porta de um templo, sem, primeiramente o coração andejo, banhá-lo com as águas da humildade, perfumá-lo com os odores da paz, burni-lo com o buril do amor e só então aventurar-se nos corredores do mistério.

Com sutileza, argúcia e precisão, o poeta aconselha:

   “Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,

                        e espere pelo instante ocasional.

                        Neste curto intervalo Deus prepara

                        E lhe oferta a palavra inicial.” (2)

E não é outra a mensagem que o maior poeta de todos os tempos, Davi, proclama, confirmando que o Senhor é bom, assim:

“Busquei o Senhor e ele me aconselhou; livrou-me de todos os meus temores. Contemplai-o e sereis iluminados e os vossos rostos jamais sofrerão vexame. Clamou este aflito, e o Senhor o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações.” (3)

 

 

 

 

(1) Lorca, Frederico Garcia – Obras Completas, tomo I, Preludio, p. 376)

(2) Carlos Pena Filho – Para Fazer um soneto – in Grandes Sonetos da Nossa Língua, Seleção e Organização de José Lino Grunewald, p. 212

(3) Bíblia Sagrada, Salmos, cap. 34, versículos 4 a 6

 

 

Por isto, nesta fé e esperança, busquei o Senhor dos mundos, numa súplica de socorro. Não sabia como começar, não conhecia a marcha a ser encetada nesta messe de tão sobranceiras inteligências. Afogava-me os olhos a perspectiva desta luz, deste oceano de claridade intelectual.

Queria a palavra base, a palavra inicial; e Ele me sussurrou: AMOR.

Amor que é de salvação ou de perdição, conforme o tenham utilizado as criaturas. Amor que, altruísta, se distribui na realização do bem, da compreensão, da fraternidade ou que, egoísta, tudo quer abarcar para si, numa devastadora fome sem termo final.

Amor que leva à vida, amor que leva à morte.

Amor puramente carnal, pelo qual homens e mulheres matam e se matam. Amor de eternidade, pelo qual se aceitam missões de humilhação e para cuja consecução se entrega até o último ceitil das economias do espírito, em prol de retorno à casa paterna.

E não foi outro o fenômeno que me trouxe a esta terra, que me incutiu no espírito o ideal do trabalho, que me observou, com oportunidade, os desvãos do destino, que me predestinou os caminhares por plagas tão diversas deste imenso país, como andarilho da esperança, buscando o seu ninho, almejando a sua alcova.

Menino, ainda, mal saído dos sonhos que ainda nem sonhara, aportei minha barca de ideais que nem ao menos sabia, em Porto Nacional, em 1.952.

Egresso da pequena mais valorosa Corrente, no sul do Piauí, onde fizera o curso primário em 4 (quatro) séries, chegava à terra de Francisco Ayres. Aprendera, em minha terra, a necessidade de lutar com todas as forças para chegar ao desejado. E ali, de pronto, enfrentei o Exame de Admissão ao Ginásio, obrigatório aos que, não tendo cursado a 5ª série primária, desejassem ingressar no ginásio, matriculando-me no Colégio Estadual de Porto Nacional, para ser aluno do Prof. Maia, do Pe. Ruy, de dona Eulina, Hosterno Silva e tantos outros.

Andejo, fui ao Rio de Janeiro, voltei a Porto nacional, vim para Anápolis, fui para Uberaba, segui para Belém, voltei para Anápolis e me fixei em Goiânia, sempre guardando a lição destas duas divinas e miraculosas palavras: amor, que aprendi de minha mãe e trabalho, que vivifiquei em meu pai.

E neste jordanear me valeram estas duas estacas, ou melhor, estes firmíssimos moirões de aroeira, fincados com a intenção de eternidade no solo de minha alma.

Era como que um traçado estranho e pitoresco, pelos meandros do destino, que me haveria de trazer a esta Academia, sob o patronato de RAYMUNDO JOSÉ DA CUNHA MATTOS, marechal de campo, filho de Alexandre Manuel da Cunha Mattos e dona Isabel Theodora Cecília de Oliveira, nascido  a 2 de novembro de 1.776, na cidade de Faro, reino do Algarve e falecido a 2 de março de 1.839, na cidade do Rio de Janeiro.

E a análise, ainda que rápida, da vida deste extraordinário brasileiro, e mais do que isto, goiano nascido no reino do Algarve, por sem dúvida mostra, de novo, a presença destas duas palavras poderosas: amor e trabalho.

Ao falecer, como afirmado acima, ocupava o elevado posto de marechal de campo, além de ser vogal do Conselho Supremo Militar, Comendador da Ordem de S. Bento de Avis e Oficial da Ordem do Cruzeiro. Sócio fundador e Vice-Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, secretário perpétuo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, foi, ainda, sócio do Instituto Histórico e geográfico da França, da Sociedade Real Bourbônica e da Academia Real de Ciência de Nápolis.

Manuseei com extremo respeito e fortíssima emoção, na cidade do Rio de janeiro, na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, os manuscritos, os documentos, as obras, os mapas, o documentário, enfim, da vida deste ser luminoso pela ação coerente e criadora. Fazia-me fremir o corpo o transporte espiritual para estas plagas de Goiás, nos longínquos anos de 1823 a 1826, quando o intrépido militar, primeiro no posto de General e depois no de Brigadeiro graduado, serviu na importante comissão de Governador das Áreas da província de Goiás.

Vale, todavia, a pena, perpassar, mesmo que rapidamente, a caminhada deste espírito de escol.

Aos 14 anos assentou praça, como simples soldado, na Companhia de regimento de Artilharia do Algarve, onde estudou o curso de Matemáticas Puras e Aplicadas à Artilharia. Começou efetivamente sua carreira no exército aliado hispano-lusitano, servindo na França, durante a Campanha de Rouxillon, seguindo depois, como furriel de artilharia de marinha para as ilhas de São José e Príncipe. Prestou ainda assinalados serviços na África ocidental, e, proclamada a independência do Brasil, executou diversas e delicadas comissões que o governo lhe confiou, entre as quais as de governador das Armas de Goiás e do Rio de Janeiro, sem se falar nas de diretor da Escola Militar e inspetor do Arsenal de Guerra.

Americano do Brasil, seu mais aprofundado biógrafo, no que tange às ligações e à profícua atuação em Goiás, declara, em trecho enternecedor: “Li pacientemente, nos arquivos de Goiás, a longa e ilustrativa correspondência desta autoridade militar que reunia ainda os dotes de exímio beletrista aos de historiador, geógrafo e filósofo. A farta messe de escritores oficiais de sua abalisada autoria, a refletir linha alinha a grande alma do patriota, devia ter, pelo valor histórico e intelectual, melhor acolhida nas seções de manuscritos das bibliotecas do país…” (4)

 

 

(4) in Pela História de Goiás, p.139

 

 

Sua atuação como comandante das Armas na verdade era multiforme, multivária, perpassando dos concertos de pontes e caminhos, na reconstituição das tropas,

da abolição da discriminação entre brancos e pardos nos regimentos militares até a grave e séria preocupação com a administração pública e a fazendária.

Como haveria de reconhecer a posteridade, seu espírito polimorfo transitava por todos os meandros da administração, auscultando-lhe aspectos políticos, sociais, econômicos, sempre atendo em fixar os fatos e sobre eles emitir seu parecer, com lógica inquebrantável.

Não é sem razão que, reconhecendo seu trabalho, a Academia Goiana de Letras o tem como patrono da Cadeira nº 6.

Cunha Mattos, em ofício de 26 de fevereiro de 1825, ao Conselho Administrativo, no ano em que se elegera deputado, mercê de sua sinceridade, espírito de ordem, patriotismo e amor a Goiás, dizia, demonstrando não haver falseado o caminho de dever: “Conservei os povos em paz que felizmente continua; não fiz extorsões, não delapidei a Fazenda Pública; não devo um só real a pessoa alguma; respeitei os direitos dos homens; obedeci às autoridades nos pontos em que me podem fazer respeitáveis; mostrei-me constantemente bom brasileiro… Não poupei ao trabalho, nos perigos fui o primeiro e nas privações não fui o último; como soldado, como filósofo e como historiador, tenho concorrido com todas as minhas forças para a glória da Província de Goiás e minha consciência não me acusa de haver feito o menor mal.” (5)

Tal inventário de intenções e de atitudes muito poucas autoridades podiam ou podem fazer.

Deságua com a força da sinceridade o seu amor por Goiás. Demonstra-se, com a evidência dos fatos, o seu incansável trabalho pelo engrandecimento da terra que elegeu como seu torrão natal. Só isto e tudo isto justificaria a mensagem que lhe prestou a Casa Maior das Letras em Goiás.

Mas não foi somente isto.

Cultor das letras, amante da história, da geografia, da filosofia, da cartografia, tantas e tão importantes foram suas produções que desusado seria, neste momento, revelá-las todas. Mas a resenha de alguns dos seus trabalhos poderá dar uma demonstração da qualidade de sua vasta produção intelectual: Corografia Histórica da Província de Goiás, Corografia Histórica da Província de Minas Gerais, Corografia Histórica das Ilhas de Dão Tomé Príncipe, Ano Bom e Fernando, Memória da Campanha do Sr. D. Pedro de Alcântara, Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão, Itinerário (desde o Rio de Janeiro até os confins da Província de Goiás com as do Pará, Maranhão, Piauí, Mato Grosso, São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais, com um Mapa, Nomenclatura Botânica (nomenclatura científica em latim e português), Carta Corográfica Plana das Províncias de Goiás e dos Julgados do Araxá etc, Questão Política, Nova Questão Plítica etc.

 

 

(5) A. e opus cits. P. 159/160

 

 

Bastariam, para deixar indelével o nome de Cunha Mattos, O Mapa da Província, a Corografia e o Itinerário, sabido, como é, que o Mapa é estruturado e base da moderna Cartografia e o Itinerário e a Cartografia são praticamente inigualáveis.

Americano do Brasil encerra seu trabalho sobre Raymundo José da Cunha Mattos, proclamando: “Se muito amou o Brasil, que ajudou a criar, com seu sangue ou suas fadigas, o coração deste patriota pertencia a Goiás, que idolatrou até a morte.” (6)

Como se vê, senhores Acadêmicos, amor e trabalho, mais uma vez, traçando os caminhos dos encontros e dos reencontros.

A Cadeira, todavia, foi primeiramente ocupada por DARIO DÉLIO CARDOSO, que tenho a elevada honra de substituir.

Substituir, digo eu, apenas obedecendo o ritual formalístico, porque ninguém substitui ninguém, na medida em que cada um é um universo inigualável, na medida mesmo em que a Academia confere a seus integrantes a imortalidade.

DARIO DÉLIO CARDOSO é a figura típica do imortal, daquele que, na estrada por onde trilhou, espalhando as lições de seu ideal, deixou marcas que nem o tempo apaga nem o espaço confunde.

Goiano de Corumbá de Goiás, começou sua trajetória exemplar em 1922, quando foi nomeado amanuense da Secretaria Particular do Presidente do estado, chegando as altas funções de Desembargador do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Professor Catedrático da Cadeira de Instituição Moral e Cívica do Liceu de Goiás, de Português na Escola Normal do Estado, de Direito Público e Constitucional da Escola de Direito do Estado, de Direito Constitucional da Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, membro e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado de Goiás, cabendo-lhe organizar e instalar a Justiça Eleitoral no Estado. Ainda além disto, a Procuradoria Geral da Justiça do Distrito Federal, a Procuradoria Geral do antigo Instituto Nacional de Imigração e Colonização, a Assessoria Jurídica do Ministro da Educação, da Presidência da NOVACAP, a Procuradoria da LBA, o Instituto dos Advogados de Goiás, de que foi dos primeiros participantes, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, onde representou Goiás, sem se falar na Procuradoria Geral do Estado de Goiás, que também exerceu.

Como se isto não bastasse, pôs a serviço do Brasil e de Goiás a sua inteligência ímpar, realizando na política, que Rui Barbosa entendeu como arte, todo o desiderato de serviço e amor com que sempre pautou a sua vida.

Eleito Senador da República, em 1945, integrou a Assembléia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição Federal de 1946, onde teve destacada autuação, mercê de seus sólidos conhecimentos em vários ramos do direito, notadamente o Direito Constitucional.

 

 

(6) A. e opus cits., p. 168

 

 

Dario Délio Cardoso, advogado, magistrado, jornalista, político, sua multivária atuação era a tradução feita e acabada de seu espírito inquieto e doador.

O ilustre acadêmico Dr. José Luiz Bittencourt, em memorável trabalho com o qual a Academia Goiana de Letras homenageou a memória de seu antigo membro, dissertou com o acerto que lhe é peculiar: “No magistério universitário, sua cátedra foi  de Direito Constitucional, Professor de vocação não se fragmentou no ofício didático-pedagógico. Porfiou na transmissão da sua mensagem de jurista, economizando pouco ou nada  de seu vasto cabedal de eruditos conhecimentos, versado que era nos meandros de todos os campos do Direito. Dele se pode dizer, sem nenhum vexame, que foi, ainda mais, um magistrado escravo da lei, ou seja, “um técnico juridicamente social”, um intérprete e aplicador da norma legal, que cumpre a vontade da lei elaborada pelo legislador eleito pelos cidadãos. Advogado, magistrado, parlamentar, repito, foi um homem do seu tempo, habilidoso na agudeza da fundamentação dialética e contra o qual, lembrando Camilo, não se podia atribuir a “diabetes do patriotismo”. Uma doença que parece tão comum na arena política da modernidade brasileira.” (7)

Membro fundador da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, veio também a integrar a Academia de Letras e Artes do Planalto.

Publicou trabalhos jurídicos de exponencial valor como “A FAMÍLIA” e “FORMAS DE GOVERNO E FORMAS DE ESTADO” (tese de concurso) além de “MANDADO DE SEGURANÇA” e outros. Inúmeras condecorações e importantes missões no estrangeiro (Inglaterra e Estados Unidos da América do Norte).

Que mais, meus amigos, se poderia exigir para que constatado, corroborado e definitivamente assentado ficasse que DÀRIO DÉLIO CARDOSO foi, ele também, um missionário do amor e do trabalho ?

 

 

(7) Bittencourt, José Luiz, Trabalho apresentado na Academia Goiana de Letras, p. 3)

 

 

Senhores Acadêmicos,

Meus amigos,

Eis-me aqui, perante vós, recebendo a unção da imortalidade, o respeito de um povo que se fez meu povo, minha alma e meu coração, na medida em que recebera sem perguntar de onde, como ou porque. Apenas aguardando e ajudando para que.

Não vos posso, assim, ofertar menos do que amor e trabalho, primícias colhidas e entregues, com sinceridade e fé, no altar das intenções que se erige no horizonte do valoroso povo goiano.

Vós e os vossos primevos me ensinaram isto.

Mas meu Pai e Criador já o houvera inculcado nos arcanos de meu espírito. O Amor verdadeiro conduz ao trabalho e este aos resultados buscados. Sou-vos imensamente grato a todos. Perdoai-me se omitir nomes. Indistintamente, a todos me inclino, respeitosamente, e agradeço, pois todos vós, de uma força ou de outra, me abristes as portas deste Cenáculo. Grandes e respeitáveis arquitetos que sois, admitistes no Quadro um simples ajudante de pedreiro. No silêncio do tempo, porém, trabalharei a palavra, para imortalizar o amor.

Na oportunidade do fazer, o ensejo da meditação que reedita a lição de nossa insuficiência, quando nos julgamos absolutos, porque “Quem remodela sem Deus, por mais que seja sábio é louco.” (8)

Artífices da palavra, é necessário considerá-la sob seu justo valor, criatura que é. Enquanto instrumento expressional das figuras que nossas idéias elaboram, a palavra é criatura, semente, aparentemente sem valor próprio. Solta, todavia, se transmuda de criatura em criadora. Povoam o nosso mundo, os seres que nossas palavras constroem, para nossa salvação ou perdição. Daí a extrema responsabilidade que temos ao manejarmos tão poderosa arma. Talvez por isto, confiada na delicada força da poesia, sutil e fatalmente ensinou Stella Maria de Figueiredo, em

“Vana Verba

A palavra

não é palavra

no dia a dia

a palavra

só é palavra

se poesia.” (9)

 

E, na introdução de “AS FLORES DO MAL” de Charles Baudelaire, tenham Ivan Junqueira relembrado: “Sois toujours poète, même em prose.” (10)

As palavras que proferimos criam o ambiente em que vivemos. E nos tempos modernos, onde a palavra descuidada só é substituída pelos incompreensíveis e esotéricos grunhidos do homem da era da comunicação tecnológica mas que não sabe falar, a tarefa dos escritores, dos poetas, dos homens de letras se torna cada vez mais gigantesca.

Eis a imortalidade acadêmica, que ao invés de um prêmio é um severo encargo. Porque quando este corpo usado e impróprio para continuar a jornada for abandonado sob a terra, restarão, imortais, as palavras que proferimos e os frutos que elas produziram. Serão de trevas ou de luz? Serão de dor ou de alegria?

 

 

(8) Lima, Getúlio Targino, Desespero da volta, in Argamassa Poética de Libertação, p. 24, livro inédito

(9) A. cit., Prêmio Cora Coralina, 1986, p. 20

(10) A. e opus cits., p. 45

 

 

 

Não foi sem razão que no maravilhoso poema “Cigarra”, Garcia Lorca estabeleceu a comparação genial da morte dos outros seres e da cigarra, assim:

 

“Todo lo vivo que pasa

                        por las puertas de la muerte

                        va com la cabeza baja

                        y um mire blancodurmiente.

                        Com habla de pensamiento

                        Sin sonidos… Tristemente,

                        cubierto com el silencio

                        que es el manto de la muerte.

                        Mas tu, cigarra encantada,

                        derramando son, te mueres

                        y quedas transfigurada

                        em sonido y luz celeste.” (11)

 

Amigos, de tudo que vi, que ouvi e que senti nestes momentos, resulta uma conclusão lógica: a largueza de vossos corações, a magnificência de vossa fraternidade, a bondade de vosso ser interior. Não há outra forma de explicar o maravilhoso da peça com que o meu eminente mestre José Luiz Bittencourt me recebeu neste Sodalício. Elevou-me a alturas que jamais alcancei, a céus que não mereci, tudo como fruto sazonado de uma fiel e verdadeira amizade, que vejo estampada, graças a Deus, nos olhos e nos gestos de todos vós.

Constato, pois, que já será possível escapar do “abrasador sol do deserto das almas incompreendidas” e cantar, com toda propriedade, a imortalidade do amor,

 

  “sem medo

                        nem alarde,

                        feliz como a sombra

                        da tarde.” (12)

 

Deus vós pague.

O Pai nos guia à verdadeira imortalidade.

 

 

 

(11) A. e opus cits., p. 25

(12) Lima, Getúlio Targino Lima, Universo de Cada Um, p. 72, inédito

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