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Lêda Selma de Alencar

Lêda Selma é poetisa, cronista e contista. Atualmente, preside a Academia Goiana de Letras. Sucedeu a acadêmica Nelly Alves de Almeida.


Data de nascimento: 15/08/1948

Data de posse: 21/9/2000

Cadeira Nº 14

Posição: 3ª ocupante

Baiana de Urandi, Lêda Selma (de Alencar), aos dois anos, veio para Goiânia/GO. É graduada em Letras Vernáculas e pós-graduada em Linguística; lecionou, por muitos anos, língua portuguesa e literatura brasileira. Ainda adolescente, aluna do Colégio Santo Agostinho, fundou o jornal estudantil ‘Juventude Agostiniana’, ao tempo em que assinava crônicas poéticas na Folha de Goyaz, afiliada dos Diários Associados, à época, o jornal mais conceituado de Goiás. Integrou, em 1986, a Campanha Nacional contra o Tabagismo/ Goiás, de cuja comissão era membro, representando a Secretaria Estadual de Educação, trabalho que contribuiu, tempos depois, para deflagrar acirrada e vitoriosa ‘guerra’ e consequente vitória contra o cigarro, com o apoio do Ministério da Saúde. Primeira conquista, a tarja preta nas caixas de cigarro.

Poetisa, contista, cronista (durante 21 anos do Diário da Manhã), palestrante, compõe várias antologias nacionais e internacionais. É verbete em diversos trabalhos críticos e dicionários goianos: Dicionário do Escritor Goiano, de José Mendonça Teles, Goiânia/GO; Academia Goiana de Letras (História e Antologia), de Geraldo Coelho Vaz e Dicionário Biobibliográfico de membros da Academia Goiana de Letras, de Mário Ribeiro Martins; integra, também, obras de alcance nacional, dentre elas, Enciclopédia de Literatura Brasileira, Afrânio Coutinho/J. Galante de Sousa, São Paulo/SP; Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, São Paulo/SP; Dicionário de Mulheres de Hilda Agnes Hubner Flores, Porto Alegre-RS. Sua poesia recebeu destaque em textos críticos dos escritores José J. Veiga, Gilberto Mendonça Teles, Nelly Novaes Coelho, todos de reconhecido prestígio internacional. Antônio Olinto, imortal da Academia Brasileira de Letras, saudou seu trabalho em prosa, no Jornal de Letras (RJ), indicando para leitura o livro de contos/crônicas, Eu, hem?!, na coluna “Os 10 livros a serem lidos’. Também o crítico e poeta Fernando Py resenhou seus poemas no jornal Diário de Petrópolis.

Ocupante da Cadeira 14 da Academia Goiana de Letras, ocupou o cargo de Primeira-secretária da AGL e, por quatro anos, o de Vice-presidenta. Atualmente, é presidenta da Academia Goiana de Letras, eleita para o biênio 2015/2017..

É membro da Associação Nacional de Escritores/ANE, União Brasileira de Compositores/UBC, União Brasileira de Escritores/UBE-GO, Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais/InBrascI.

Participou, com noites de autógrafos, em várias bienais internacionais do livro. Tem algumas obras lançadas na BA, DF, MG e SP (nesse último, no Centro Cultural São Paulo, a convite da prefeitura paulistana).

 

ESTUDOS ACADÊMICOS SOBRE SUA OBRA:

Dissertação de mestrado – Profª Mestre, Maralice Silva Borges, publicada em livro: A pluralidade de gêneros e imaginário na obra de Lêda Selma (2012).

Estudo de Pós-doutoramento – Prof. Dr. Iêdo Paes – UFR/PE – Por entre águas, morte e desejos: a tessitura do imaginário em Lya Luft e Lêda Selma – uma incursão pelos labirintos poéticos (no prelo).

 

PROJETOS:

Poesia em doses – poemas de autores goianos nos muros – foi matéria na Revista ISTO É, no Jornal Hoje e Jornal Nacional da TV Globo

Poesia em doses – poemas de autores goianos no placar eletrônico do Estádio Serra Dourada.

Poesia em doses – poemas de autores goianos em cartão telefônico (antiga Telegoiás) e cartões postais.

Poesia em doses – poemas de autores goianos em banner – homenagem aos 500 anos do Brasil.

‘Por amor, não Fume!’ – concurso literário infanto-juvenil de redação, envolvendo escolas estaduais de todo o estado de Goiás.

 

ALGUMAS PREMIAÇÕES:

Prêmio em Literatura (Conto) – BEG – Goiânia

Prêmio em Literatura (Crônica) – BEG – Goiânia

Medalha Anatole Ramos (Prosa) – Conselho Estadual de Cultura/GO

Medalha Leodegária de Jesus (Poesia) – Conselho Estadual de Cultura/GO

Troféu Tiokô (Poesia) – União Brasileira de Escritores/GO

Troféu Goyazes ‘Marieta Telles Machado’ – crônica – Academia Goiana de  Letras

Troféu Buritis – Conselho Municipal de Cultura – Goiânia

Diploma Mérito Cultural (conjunto da obra) – União Brasileira de Escritores/RJ

Troféu Mulher Destaque – Soroptimist International of the Américas/ S. I. Goiânia Sul

Elas: Mulheres de Goiás – Senado Federal

Placa Personalidade Cultural e Acadêmica – Câmara Municipal de Goiânia

Troféu Mérito Cultural – MOSARTE/GO

Moção de Congratulações – Instituto Carlos André

Placa Personalidades do Meio Cultural e Acadêmico – Câmara Municipal de Goiânia

Homenagem Especial – PEC – Banco do Brasil

Honra ao Mérito Marista – Colégio Marista/GO

Mérito Especial: Câmara Municipal de Urandi/BA

Reconhecimento Rotário – Rotary Club Goiânia Serra Dourada

Aplauso e Reconhecimento – Colégio Shallon – Goiânia

Dia Nacional do Artista – Destaque na Literatura – Companhia Rhema/GO

 

TÍTULOS:

Cidadã Goianiense – Câmara Municipal

Cidadã Goiana – Assembleia Legislativa

POEMAS

Das sendas à travessia (1986)

A dor da gente (1988)

Fuligens do sonho (1990)

Migração das horas (1991)

Silencios de viento y mar – coautoria (2003)

À deriva (2005 e 2008, 2ª Ed.)

Sombras e sobras (2008)

De sinas e ceias (2012)

 

CONTOS/CRÔNICAS

Pois é, filho… (1997/98/99 – 3ª Ed.) 

Nem te conto (2002)

Até Deus duvida (2002/2012 – 2ª Ed.)

Hum… Sei não! (2006/2017 – 2ª Ed.)

Eu, hem?! (2008)

Sortidos e requentados (2009)

Mexidos e remexidos (2011).

 

ANTOLOGIA POÉTICA (DE BOLSO)

Poesia em doses – Fomes Zero – poemas de autores goianos, trocados por alimentos (2003) – organizadora.

DISCURSO DE POSSE

A emoção é a consciência do poeta

Ilustres componentes da mesa,

distintos acadêmicos, prezados escritores,

queridos familiares, amigos, autoridades..

 

Velha Goiás

dependurada nas ruas,

espreitada por ladeiras

e sombras

e pela menina

da casa velha da ponte.

 

Velha Goiás

do abraço velado

das casas siamesas,

espremida na solidão

dos becos.

 

Velha Goiás

debruçada sobre a poeira

de lembranças tantas,

a romper o tempo,

a escalar a História.

 

De doce, alguns sonhos.

Sem reboco, tantos medos.

 

Outono de 1895. 21 de maio. Sob a vigília austera e ao mesmo tempo romântica, do Largo do Chafariz, a velha Vila Boa, antiga capital de Goiás, emprenha-se de euforia. Vindo à luz, cheio de luz, aquele que seria o maior expoente regionalista de nosso Estado e um dos grandes nomes da literatura nacional. E o jornal Goiás, seis dias depois, anuncia, com entusiasmo e orgulho, a chegada do novo rebento do poeta Manuel Lopes de Carvalho Ramos e de dona Mariana Loiola Ramos. Mas, com uma curiosidade: dá ao menino o nome de Juvenal. O pitoresco é que, na realidade, tratava-se de Hugo de Carvalho Ramos. Sua bênção, meu Patrono!

Aos seis anos, inicia o caminho pelas primeiras letras e, aos doze, já lê autores do porte de Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Coelho Neto e Afonso Arinos, além de renomados escritores franceses.

 

No fulgor da adolescência, aos quinze anos, faz sua estréia no jornalismo, sob pseudônimo de R. R., na coluna intitulada Lágrimas e Riso e como João Bicudo, à mesma época, 1910, assina a seção Silhuetas em A Imprensa. No ano seguinte, é o primeiro classificado em concurso para a Secretaria de Finanças, o que lhe rende admissão como praticante. Pouco depois, chora a perda do pai e resolve, um ano à frente, mudar-se para o Rio de Janeiro, seguindo os rastros dos grandes literatos.

De temperamento peculiar, introvertido e demasiadamente tímido, não estabelece, entretanto, muitos vínculos com a intelectualidade. Mesmo assim, a Gazeta de Notícias, veículo de notória importância e prestígio, publica seus contos A beira do pouso e A bruxa dos marinhos nos quais se mostra, especialmente, fiel aos temas agrestes dos sertões goianos.

Em 1915, matricula-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, o que não o impede de continuar escrevendo várias estórias, sempre se dedicando ao gênero regionalista, enaltecendo com maestria a paisagem mostrada, cada vez mais, em cores vibrantes e de raro brilho, como se a pintasse de poesia. E, de certa forma, revela uma significativa identidade de estilo com um de seus autores preferidos, Coelho Neto, e a destacada influência de Euclides da Cunha, com o seu Os sertões. No ano seguinte, começa a selecionar os contos que comporão Tropas e Boiadas e, simultaneamente, colabora com a revista A Época.

Fevereiro de 1917 chega suado de mar; e, sob o calor dourado do Rio de Janeiro, então Capital da República, prenuncia uma literatura com cheiro, cor e gosto de chão goiano e têmpera cabocla, num momento em que o regionalismo brasileiro parecia ameaçado de extinção. Atentos, Medeiros e Albuquerque e Antônio Torres aclamam com muito entusiasmo, no jornal O Comércio, o surgimento de Tropas e Boiadas, não lhe poupando, nem a seu autor, referências elogiosas.

Afinal, o escritor estreante era apenas um jovem de vinte e um anos, saído das entranhas do Planalto Central, que mostrava ao Brasil a alma e os costumes do rude e bravo nativo do Centro-Oeste. Um jovem, apesar da alma melancólica, companheira inseparável de sua também inseparável e melancólica solidão. Um jovem já imortalizado pela densidade da sua obra.

O livro, um conjunto de comoventes contos de estirpe humanística, marcado por grande sentimentalismo, através de primorosas construções cadenciadas e melodiosas, de expressiva originalidade e de grande força simbólica, é uma apologia à vida e ao sofrimento do homem do campo, à sua destreza e ingenuidade, às injustiças sociais, à esperança sertaneja, às vezes, manchada de desesperança, mas fertilizada pela coragem e pelo espírito de luta que distinguem e distanciam os fortes dos poderosos. Tropas e boiadas é, ainda, um verdadeiro cântico à natureza, em suas formas variadas, como bem o retratam Caminhos de tropas, Mágoa de vaqueiro, Pelo Caiapó Velho, Nostalgias, Poldro Picaço, Ninho de periquitos e O Saci. Um momento também especial, a novela Gente da gleba em que, com os sentimentos em polvorosa, e em cores de vívidos tons, descreve a insana exploração do trabalhador da terra, indefesos colonos, por parte dos coronéis latifundiários, senhores únicos de uma infame justiça unilateral, sempre forjada em detrimento do sofrido e pobre sertanejo.

E Hugo de Carvalho Ramos não pára de surpreender os leitores com suas criações sensíveis, mescladas de ficção e de realidade e sempre impregnadas do sabor da vida campestre. E consegue ser impressionista e expressionista com o mesmo talento e notável brilho. E continua usando a poesia como pincel.

Ainda sob o impacto do reconhecimento de sua obra, 1919, mas já bastante subjugado pela depressão, é reprovado em Prática do Processo Civil e Comercial, não colando grau no curso jurídico. Entrega-se, então, totalmente, à literatura e idealiza a reedição de seu Tropas e boiadas (ao tempo em que recusa a proposta de Monteiro Lobato para a 2a edição do livro), selecionando, com o capricho de sempre, os comoventes contos Peru de roda, Almas das aves e Caçando perdizes, para integrá-lo à desejada nova edição.

Entretanto, esse desejo só se realiza após sua morte, através do irmão, dois anos mais velho, o também escritor, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e co-fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Vítor de Carvalho Ramos, a quem reverencio, neste momento, como Fundador da Cadeira n° 14. Foi ele o responsável pela publicação, em 1950, das Obras Completas de Hugo, às quais foram acrescidas belas e inéditas páginas, dentre elas, Hinário e Turris Ebúrnea, destacadas pelo estilo simbolista e escritas no mais dramático período de sua vida, além de Plangências, A esmo, Últimas páginas, Críticas, Poesias e Correspondências. E, como não podia faltar, a já consagrada Tropas e boiadas, sua única obra publicada em vida, mas que bastou para torná-lo um dos grandes magos do regionalismo.

Vítor de Carvalho Ramos fala do irmão de forma emocionada e repleta de orgulho, sem, contudo, tisnar a coerência e a fidelidade de seu aguçado e imperativo senso crítico, na obra Letras Goianas – Esboço Histórico: “… Havia dentro dele uma força estranha, irresistível, que o impelia para fora de si mesmo. Desde criança revelara tendências ao misticismo, à revolta contra tudo que podia inferiorizar o espírito humano, rebaixando-o à simples animalidade. Seu espírito pairava alto, num mundo de sonhos e fantasias. Atormentavam-no noites seguidas de insónia. Sempre triste, não compreendia as realidades práticas da vida. Nunca, dizia-nos ele, viverei dos frutos da inteligência; não farei de minha Arte uma profissão “.

Segundo ainda Vítor, “Hugo foi também inspirado poeta. Só os íntimos lhe conheciam os versos, que não publicava. Sua poesia espontânea, musical, tem o encanto das flores silvestres e está muito acima dos comuns versejadores”.

Isto me faz lembrar Willian Carlos Willians: “Não é fácil encontrar novidades em poemas; mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”. E, concordando com ele, especialmente neste momento em que meu sonho ainda zonzo, como se bêbado de sol, embala-se na cantiga que evola de minh’alma em alvoroço, peço-lhe permissão, meu Patrono, para espalhar por esta Casa de Colemar Natal e Silva – santuário das letras goianas – um pouco do aroma de seus versos, emanado dos tercetos que compõem um de seus belos sonetos, Meio dia: “Volve a calma./ O meio dia aquece a encosta. Apenas/ abebera-se o gado. E ei-lo à sombra: rumina./ Catam-no os gaviões, que, aos pinchos, batem penas.// Mas do ingazeiro em flor na mais alta ramada,/ um zumbi abre o canto estival em surdina…/ E trilos de cigarra explodem na chapada.”

A 12 de maio de 1921, na rua General Canabarro, Rio de Janeiro, no vigor da juventude, e em pleno outono, após agravamento de sua depressão e da terrível angústia que o abatia diuturnamente, Hugo de Carvalho Ramos rende-se ao cansaço e, impulsionado pela incurável tristeza, entrega sua vida à eternidade. E deixa pelos céus e pelos tortos caminhos por onde passaram tantos de seus personagens, pegadas de poeiras de suas Tropas e boiadas. O poeta-escritor não morrera. Ainda em vida, sua obra o imortalizou.

Lendo Retrato da Academia Goiana de Letras, do acadêmico Humberto Crispim Borges, descobri que, dois meses após a morte de Hugo de Carvalho Ramos, Viriato Correa é abordado em uma rua do Rio, em certa noite, pelo escritor Adelino Magalhães, autor de Tumulto da vida, que lhe pergunta, abruptamente: “Leu você, algum dia, por acaso ou de propósito, as Tropas e boiadas!”. Viriato responde-lhe animado: “Li e três vezes”. “Que lhe pareceu o livro?”, completa Adelino. “Só se lê três vezes um livro maravilhoso…” , arremata Viriato. Hugo continuava mesmo vivo. Verdadeiramente vivo.

A professora, pedagoga, filóloga, crítica literária e acadêmica Nelly Alves de Almeida, em seu ensaio Estudos Sobre Quatro Regionalistas, mais um de seus excelentes trabalhos-referência no campo da crítica literária, expõe todo seu encantamento e respeito à obra de Hugo de Carvalho Ramos: “… Preocupou-se com a atmosfera que tudo cerca – homens, cousas, paisagens, belezas de sua terra tão central e tão esquecida, então, do resto do Brasil. Com técnica admirável, soube sondar, eficientemente, o estado psíquico do sertanejo, soube aproveitar os elementos sociológicos e geográficos revelando, como já afirmei, e como afirmam todos os que dele se têm ocupado, grande apego ao seu torrão natal”.

Nelly Alves de Almeida – ah, quanta saudade, mestra e amiga! – de quem só conheci o jeito carinhoso e terno, além da permanente disposição de orientar e sempre incentivar mesmo quem, apenas, tentava esboçar os primeiros passos em direção à caminhada literária, foi a última ocupante da Cadeira n° 14. E, mesmo sabendo da enorme responsabilidade que assumiria, pleiteei ocupá-la, sem, contudo, empunhar a pretensão descabida de substituir alguém de tão destacada grandeza intelectual e humana. Se possível fosse, para herdar, humildemente, sua sabedoria, seu talento moldado no afinco, sua energia para o trabalho e seu espírito ativista, aí sim, poder-se-ia firmar minha pretensão.

Tive o privilégio de, ainda iniciante na poesia, merecer um prefácio da professora Nelly. E o incentivo que me foi dado à época, redundou-se, de certa forma, em novo incentivo agora, tantos anos depois, já quase no exício do milênio: ousei sonhar ser parte da confraria dos intelectuais goianos, representada por esta nobre Academia de Letras. Afinal, se já àquele tempo, fui considerada por ela uma poeta de “versos que trazem maturidade poética, dom artístico e agudeza intelectual…” hoje, bem mais madura e confirmando suas próprias expectativas de “muitos outros trabalhos na trajetória poética tão bem iniciada já em seu primeiro livro, contribuindo, de fato, para o crescimento de nossas letras”, sinto-me credenciada a sentar-me no lugar já ocupado por quem tanto me ensinou e tanto acreditou em meu potencial literário. E com a humildade dos grandes, com certeza, lá de um dos beirais do Parnaso, ela me abençoará com a generosidade do espírito altaneiro em festiva revoada.

Nasci baiana, mas cresci goiana. Por adoção, goianiense. De coração esmeraldino e emoção alviverde. E, como costumo dizer, poeta de nascença. Talvez por isso mesmo, tenha vivido, desde criança, com desmedida intensidade, as angústias inexplicáveis, os sonhos incompreendidos, a melancolia do invisível. E que a poesia, muitas vezes e sob tortura, confina, ao asilo do insondável, a já torturada alma do poeta. Sem, entretanto, extirpar-lhe o direito de ser livre ou exaurir-lhe a capacidade do vôo e a esperança da chegada. E nesse despencar despenhadeiro abaixo, abrem-se fissuras na alma do poeta e, por elas, o sol entra mesmo sem pedir passagem. E se repete, mais uma vez, o renascimento da vida, como se, de um fragmento de estrela, o próprio mundo fosse recriado à revelia dele próprio. Assim, por muitas vezes, deixo minh’alma descalça para que possa sentir as feridas do chão e compreender a diferença entre caminhada e vôo. Este é o lado mais difícil da poesia e o mais angustiante para o poeta. É a circuncisão da própria existência.

Todo início de percurso parece-nos, no mais das vezes, uma subida exaustiva e cunhada em grandes dificuldades, se não temos o vaticínio do ponto de chegada. Para a transposição das etapas, no afã de uma tomada segura de atalhos, necessitamos de um gesto de apoio, de um investimento em nossas buscas ou de um novo pavio para a esperança. E minha mãe, dona Lousinha, estava lá, na base da ladeira, esperando por mim, insistindo para que eu não desistisse, mesmo se aliciada pelo desalento tão comum às escaladas. Minha mãe estava lá, sim, para o resgate da certeza de que a filha-poeta-de-nascença precisava publicar seu primeiro livro e, assim, caminhar até a copa da ladeira literária. E como presente de Natal, naquele ano, 1985, ela me deu a edição de Das sendas à travessia, lançada no Dia Nacional da Poesia, 14 de março, verão de 1986, endossada pelo prefácio de meu mestre e amigo, o escritor, poeta e acadêmico, Miguel Jorge, grande incentivador desde os tempos de faculdade, a quem devoto a maior admiração.

Pois é, minha mãe, este instante-marco, que de tão grande, me envolve com sobras, é o desdobramento daquele caminhar iniciado há catorze anos. É um instante muito especial. E eu o dedico à senhora.

Os deuses da poesia, num conluio a meu favor, transformaram alguns poetas em luzeiros de minhas sendas. Como a poetisa e crítica literária Darcy França Denófrio, um dos destaques de nossa literatura, prefaciadora de meu terceiro livro, Fuligens do sonho, presença importante, como o foi Miguel Jorge, em meu crescimento literário. E, dela, mereci a honra de ser verbete em seu ensaio Hidrografia Lírica de Goiás I. Também, ressalto o apoio do acadêmico e grande contista, o A conterrâneo Mário Risério Leite, de quem recebi impagáveis ensinamentos, bem como do poeta Emílio Vieira, intelectual de elevada grandeza, o primeiro a ler e a avaliar os originais de meu livro de estréia.

Mas, de mim, não quero falar. Minha poesia, certamente, terá muito tempo para fazê-lo; afinal, ela é, sem dúvida, minha mais legítima porta-voz, a verdade maior que possuo e minha mais genuína inteireza. Ademais, o poeta de todas as horas, Luiz de Aquino, meu parceiro de ofício, também em prosa, já o fez com excessiva condescendência e grande sensibilidade poética, em seu discurso de saudação ao meu ingresso a este sodalício. Quero, sim, agradecer.

Em especial, a Deus, poeta maior, por este momento abençoado.

E, através dos confrades Leolídio Di Ramos Caiado e Jerônimo Geraldo de Queiroz, minhas ternas aquisições no campo da amizade, agradeço aos que acreditaram em minha literatura e, conseqüentemente em mim, e que hoje me acolhem nesta magna Casa com tanto respeito, deferência e carinho.

A meu pai, o pernambucano Ezy Dantas, minha saudade.

meus irmãos, em especial a Ezilton, mais uma vítima da impunidade, a certeza da importância de vocês durante os trajetos empreendidos.

Aos familiares e amigos, meu afeto como retribuição a tanto carinho.

O que dizer a meu marido, José Geraldo, companheiro de quase todos os instantes, e sempre tão presente quando perco o leme e me afundo mar a dentro? Apenas, que a vitória materializada, neste instante, é um pedaço de sonho que deixei escapar de nosso viveiro. Mas ele não lhe fará falta, acredite; ao contrário, reproduzir-se-á em tantos e tantos outros.

A Cinthia, um dos versos mais bonitos de meu poema sempre inacabado, um pouco desta emoção que já não cabe em meus olhos. Um beijo de amor, filha.

A minha estrela, perdão. Por eu apenas sobreviver depois de tê-la perdido.

Eu sabia que, desta vez, o Júnior não se contentaria em, apenas, observar tudo lá do topo do céu. Minha intuição, felizmente, estava certa. Há pouco, percebi sua inquietude, já se transmutando em chegada, solapar meu coração. E, com certeza, todos aqui presentes acabaram de ver meu filhote postergar a tradição deste protocolo, com a informalidade e pressa sempre tão constantes nos jovens, para dar-me um beijo de parabéns e cochichar-me um pedido:

– Mãe, se você, hoje, tiver que chorar, que seja só de alegria.

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