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Lena Castello Branco Ferreira de Freitas

Lena Castello Branco é escritora. Sucedeu o acadêmico César Baiocchi.


Data de nascimento: 29/01/1931

Data de posse: 31/03/2016

Cadeira Nº 30

Posição: 2ª ocupante

Natural de Parnaíba, PI. Reside em Goiás desde 1949.

  • Licenciada e bacharel em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia Ciência e Letras da atual PUC – Goiás.
  • Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo.
  • Ex- Membro do Conselho Federal de Educação (Brasília).
  • Ex- Diretora Geral do Instituto Nacional de Estudo e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do Ministério da Educação (Brasília).
  • Ex- Assessora do Gabinete do Ministro da Cultura (Brasília).
  • Sócia Emérita do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, de cuja Revista é Diretora.
  • Sócia fundadora da Sociedade Brasileira de História da Medicina.
  • Professora Titular aposentada da Universidade Federal de Goiás. Foi professora de ensino médio no Liceu de Goiânia e no Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia (Católica).
  • Como Diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras propôs e efetivou a criação dos cursos de Mestrado em História e Mestrado em Letras da Universidade Federal de Goiás.
  • Autora da proposição de criação e responsável pela instalação do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás.
  • Publicou em periódicos especializados dezenas de artigos e ensaios sobre História Regional, História da Educação, História da Saúde e Literatura.
  • Sócia fundadora da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.
  • Membro Efetivo da Academia Goiana de Letras.
  • Sócia Titular da Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes.
  • Sócia Correspondente da Academia Belavistense de Letras, Artes e Ciências.
  • Recebeu o Prêmio Clio de História Social, conferido pela Academia Paulistana da História.
  • Menção Honrosa no Prêmio Pedro Calmon do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, atribuído ao livro Poder e Paixão: a saga dos Caiado.
  • Recebeu o Troféu Jaubru, conferido pelo Governo do Estado de Goiás.
  • Idem, o Troféu Buritis, recebido da Prefeitura Municipal de Goiânia.
  • Cidadã Vilaboense e Cidadã Goianiense – títulos conferidos respectivamente pelas Câmaras Municipais da Cidade de Goiás e de Goiânia.
  • Cidadã Goiana – título conferido pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás.
  • Colaboradora do periódico: Unimed Cerrado em foco e da revista SICOOB-Cultura.
  • Há 11 anos, é cronista semanal do jornal Diário da Manhã, de Goiânia.

Livros publicados:

Poder e paixão. A saga dos Caiado. 2 v. Goiânia: Ed. Cânone, 2009 (1ª reimpressão: 2010).

Novilha de raça e outros contos. Goiânia: Ed. Kelps,  2009.

– Goiás: História e Cultura. Goiânia: Ed. Deescubra, 2004.  (2ª. edição: 2008).

– Saúde e doenças em Goiás. A medicina possível. Uma contribuição para a História da Medicina em Goiás. (Coordenadora) Goiânia: CEGRAF/UFG, 1999.

Arraial e Coronel: dois estudos de História Social. São Paulo: Ed. Cultrix, 1978.

Uma Família na História. Goiânia: Imprensa da UFG, 1967.

 

Coletâneas:

  • Novilha de raça – conto, in RAMOS, A. VALADARES, L.F. & JORGE, Miguel. Antologia do conto goiano. Goiânia: Departamento Estadual de Cultura/LR Livros Distribuidora, 1969, p. 152-159.
  • O ninho vazio. In ANTOLOGIA. 2012. Vozes atuais da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Goiânia: PUC.GO/Kelps, 2012, p. 42-43.
  • Literatura e história. In UNES, Wolney (Organizador). Bernardo Élis. Vida em obras. Goiânia: AGEPEL/Instituto Centro-Brasileiro de Cultura, 2005, p. 101-117.

 

Capítulos de livros:

 – Honorários de um cirurgião na Justiça. In ARRAIS, Cristiano e SANDES, Noé Freire. Historiografia Goiana. Em fase de editoração. Goiânia, UFG, 2017.

– Em Vila Boa: doenças e carências no século XVIII. In LEMES, Fernando Lobo (Coordenador). Para além das Gerais: dinâmica dos povos e instituições na América portuguesa. Bahia, Goiás e Mato Grosso. Goiânia: Ed. da PUC/GO, 2015, p. 111-154.

– Vozes do silêncio. In LEMES, Fernando Lobo (Organizador). Territórios da História. Rio de Janeiro: Ed. Multifoco, 2015, p. 211 – 246.

Goiás e a vinda da Família Real: influências e ressonâncias. Os governadores de Goiás. In PEREIRA, Aidenor Aires et alii (Coordenadores). Goiás e a vinda da Família Real para o Brasil. 200 anos. Goiânia: Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Ed. Kelps, 2009, p.191-204.

– Goiânia: locus privilegiado da saúde. In FREITAS, L.C.B.F. Saúde e doenças em Goiás. A medicina possível (Org.) Goiânia: CEGRAF/UFG, 2000, p.239-289. Republicado, em forma condensada, in Revista da Academia Goiana de Medicina a.4, n.17, p.10.  Março de 2008.

Presença inglesa no Nordeste: a Casa Inglesa de Parnaíba. In SANTANA, Raimundo N. M. (Organizador). Apontamentos para a História Cultural do Piauí. Teresina: FUNDAPI, 2003, p.251-260.

Perspectiva Histórico-Cultural do Idoso no Brasil do Século XXI. In GUIDI, M.L. et alii. (Org.) Rejuvenescer a Velhice: Novas dimensões da vida. Brasília: Ed. UnB, 1994, p. 101-117.

A Educação no Brasil. In FERRI, M.G. & MOTOYAMA, S. (Org). História das Ciências no Brasil. EPU/EDUSP, CNPq, São Paulo/Brasília: 1981, p. 279-346. Republicado in SOUZA, P.N.P. et alii.(Org.).  Educação, Escola e Trabalho. S. Paulo: Ed. Pioneira, 1984, p. 109-164.

 

Artigos e ensaios (alguns):

– De senhores e escravos: terra e trabalho no Brasil do século XIX. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n. 26, Goiânia, 2015, p.89 – 128.

– Fazendas goianas. Em colaboração com SILVA, Nancy Ribeiro de Araújo e. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n. 25, Goiânia, 2014, p.129 – 140.

 – Goiânia: mitos e realidade. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n. 24, Goiânia, 2013, p. 161-172.

 – Do interior mais distante: uma história de poder e paixão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a. 172, n. 451, abr/jun 2011, p. 307-318.

– Medicina e historiografia em Goiás. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n. 21, 2009, p. p. 115-142, n. 22, Goiânia, 2010, p. 83-96.

– Patrimônio cultural da saúde em Goiás: edificações e acervos. Idem, ibidem, p.

– 50 anos de Brasília: atuação dos goianos na mudança da Capital. Perfil Cultural a. 6 n. 7 Bela Vista de Goiás, p. 27-48.

–    Museu Antropológico: memória e história (em colaboração com BARBOSA, Juarez Costa). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n. 21. Goiânia, 2009, p. 59-78.

 – Diário de um médico do século XIX: Dr. Malaquias Antôno Gonçalves. Em colaboração com REZENDE, Joffre Marcondes de. Idem, ibidem, p. 113-126.

– No Segundo Império, deputados e mandarins em Goiás. Idem, n.17. Goiânia, janeiro-junho, 2009, p.83-113.

– Melhor idade? Perfil cultural v. 1. n. 2 Bela Vista de Goiás, 2006/2007, p. 189-192.

Rememórias. Revista da AFLAG n. 3. Goiânia: Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, 2002-2006, p. 66-74.

Chegam os trilhos a Goiânia: a construção da Estação Ferroviária. Goiás Cultura. Revista do Conselho Estadual de Cultura, n. 7. Goiânia, 2006, p. 27-41.

Correição em Villa Boa de Goyaz. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás,n.18. Goiânia: 2004,p.87-106.

Memória do Mestrado em História: 30 anos. Depoimento.  História Revista. Revista do Departamento de História e do Programa de Mestrado em Historia da Universidade Federal de Goiás.  V.8, n. 1 / 2. Goiânia, 2003, p. 9-19.

Cidade de Goiás: Patrimônio Mundial. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n.17. Goiânia, 2002, p.55-64.

O prospecto de Villa Boa de Goyaz. Idem, p. 133-140. Republicado in Goiás Cultura. Revista do Conselho Estadual de Cultura, n. 6. Goiânia, 2002, p. 95-109.

Vila Boa e Goiânia: diferentes ou semelhantes? Goiás Cultura. Revista do Conselho Estadual de Cultura, n. 5. Goiânia, 2001, p. 23-37.

Goiás e goianidade. Revista da AFLAG, n. 1. Goiânia:  Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, 2001, p.183-191.

Mulheres: sombras tênues da História? Fragmentos de Cultura a.8 n.4. Goiânia: Sociedade Goiana de Cultura,  jul/ ago 1998, p. 987-1007.

Antigas fazendas do Planalto Central (em colaboração com SILVA, Nancy Ribeiro de Araújo e). Ciências Humanas em Revista. Revista do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, a.6, n. 2, jul/dez.1995, p. 113-130.

Produção historiográfica do curso de mestrado em História das Sociedades Agrárias da Universidade Federal de Goiás. Anais da XIII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba, 1994, p. 23-27.

Alcântara: Utopia Urbana. Anais da XII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. S. Paulo, 1992, p. 239-245.

Fazendas Goianas. História e características (em colaboração com SILVA, Nancy Ribeiro de Araújo e). Idem, ibidem, p. 247-251.

Sobre as fontes documentais para a História de Goiás (em colaboração com SILVA, Nancy Ribeiro de Araújo e). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, n.12. Goiânia, 1989, p. 91-112.

 

Crônicas:

– Crônica semanal in DM-Revista / Diário da Manhã. Goiânia, de 2005 à atualidade. Acessível in www.atleca.com.br

– Cronista da publicação “UNIMED – Cerrado em foco”, desde 2012.

– Colaboradora da revista SICOOB Cultural, 2016.

– Foi cronista dos jornais Folha de Goiás, Jornal de Notícias e O Popular (décadas de 1950 a 1980).

DISCURSO DE POSSE

Ao ser empossada  na Academia Goiana de Letras, vejo essa distinção como um coroamento de vida, que já vai longa, pelo que proclamo meu reconhecimento, respeito e admiração aos imortais que me acolhem. Sejam, pois, de agradecimento as minhas primeiras palavras, com a certeza de que muito me esforçarei para corresponder às expectativas, dando o melhor de mim mesma à convivência, às tradições e às iniciativas desta Casa.

Foram longos os caminhos que me trouxeram a esta tribuna.

Cheguei a Goiás há 68 anos e aqui me fixei, dando início ao processo de goianização que culminou com o honroso título de Cidadã Goiana, a mim conferido pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. Agora reiterado, quando transponho os umbrais desta Casa.

 

Aqui adentrando, cabe-me ocupar a Cadeira no.  30, patroneada pelo poeta Demóstenes Cristino, mineiro de nascimento, mas radicado em Ipameri (GO). Formado em odontologia, exerceu também o jornalismo no O Ipameri e Ipameri-jornal, que congregavam as mais destacadas inteligências da região da Estrada de Ferro Goiás.   Colaborou, igualmente, com a revista Alterosa, de Belo Horizonte, bem como com periódicos do Triângulo Mineiro.

Em 1949, publicou seu primeiro livro de poemas, Musa bravia; em 1960,  Trovas – ambos bem recebidos pela crítica e pelos apreciadores da poesia. Para J. G. de Araújo Jorge, a leitura de seus “versos simples e espontâneos” revela “um poeta de feição antiga com espírito moderno”. No dizer de Joaquim Rosa, situando-se o vate “entre o parnaso e o modernismo”, em seus poemas estão presentes “forma, ideia, espontaneidade, humor, filosofia…”  Leo Lynce ressalta-lhe “a vigorosa sensibilidade”, e registra ser ele “o maior dos humoristas que temos tido”.

Para Gilberto Mendonça Teles

Demóstenes Cristino foi desses poetas para quem a poesia, além de sua grande funcionalidade lírica de escapismo e re-criação, se reveste também de uma tonalidade áspera, num processo de exteriorização crítica, através do qual o poeta responde aos múltiplos apelos da existência. Para isto, a melhor arma foi para ele a sátira, não a sátira pessoal, ofensiva, e sim aquela, mais universal, que o fazia rir de certos aspectos ridículos da vida (A Poesia em Goiás).

 

Tive acesso à poesia de Demóstenes Cristino pelas mãos de sua neta e divulgadora apaixonada, a poetisa Yeda Schmaltz, amiga e confreira da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.  Na obra do poeta mineiro/goiano – Musa bravia – predominam tons nostálgicos e saudosistas, mesclados à inspiração verde-amarela, como ressalta Coelho Vaz. Cerca de um terço do livro enfeixa “Versos humorísticos”, sendo “Raça” o mais apreciado deles, recitado em todo o Brasil, assim como em outros países lusófonos. Lembremos um exemplo da verve de Demóstenes Cristino: certa jovem aniversariante pediu-lhe que a presenteasse com um poema. No que foi atendida com bom humor: “Parabéns, querida amiga/com votos por seu futuro/mas quando eu me for não diga/ que é presente de…pão duro”.

 

Sucedeu-o na Cadeira no. 30 o escritor César Baiocchi, cuja produção se diversifica em romance, conto e poesia. Natural da Cidade de Goiás graduou-se em medicina na Universidade Federal do Paraná. Recém-formado, passou a residir em São José do Cauiá, nesse estado, nova fronteira agrícola que se abria na década de 1950. Além de atuar como médico devotou-se a atividades culturais, inclusive ao teatro amador.

De sua vivência nesse mundo em transformação resultou o romance Corriola- Paraná – Brasil, testemunho de vida filtrado pela imaginação. Como lembra o acadêmico Licínio Leal Barbosa, em inspirado texto, o personagem central da narrativa é um médico – seria o alter ego de César Baiocchi? – espécie de guru daqueles “homens e mulheres simples, valorosos, crédulos, valentes, empenhados em construir um novo mundo” (in Requiem para César Baiocchi).

Talvez herdando o espírito de seus antepassados – que vieram da Itália para o Brasil em busca de horizontes mais amplos – depois de realizado profissional e politicamente no norte paranaense (onde se consagrou como médico e elegeu-se vereador e suplente de deputado), César Baiocchi veio para Brasília, ainda em construção. Radicou-se na nova capital federal, onde continuou a praticar a medicina, especializando-se em psiquiatria.

Elegeu-se presidente da Associação dos Psiquiatras de Brasília; foi designado Presidente do Conselho de Cultura; participou de cursos e jornadas profissionais; ingressou na Sociedade Brasileira de Escritores Médicos; recebeu condecorações e distinções as mais elevadas.

Voltando a residir em Goiânia, César Baiocchi exerceu intensas atividades profissionais e empresariais. Em 1972, passou a integrar esta Academia Goiana de Letras. Por ocasião de sua posse, foi saudado com memorável discurso pelo único escritor goiano a ter assento na Academia Brasileira de Letras.  Para o duplamente imortal Bernardo Elis, o recém-publicado livro do novo confrade – Sete mulheres de trinta e um olho dágua – iria enriquecer Goiás

com histórias tiradas do viver urbano que agora começa a impor-se perante nós, como decorrência das primeira aglomerações urbanas de características universais. São os temas e os problemas ligados ao amor, ao sexo, às drogas alucinógenas, a episódios da vida médica. (…) [com o que] demonstra acurado domínio da técnica narrativa (In GALLI, Ubirajara. Cesar Baiocchi. Um médico muito além do divã).

 

Em outra faceta de sua personalidade polimorfa e inquieta, preocupado com a preservação do meio ambiente e voltado para iniciativas de interesse comunitário, criou a Fundação César Baiocchi – Acqua Vitae, cujo objetivo é “a valorização e a preservação da vida”. Como informa José Mendonça Teles no “Dicionário do escritor goiano”, ele dedicou-se, com sua Fundação, à consolidação do Polo de Turismo Ecológico em Luis Alves, no rio Araguaia. Nesse novo cenário de luta, envolveu-se com as atividades da comunidade ribeirinha “voltadas para a estruturação de entidades civis organizadas e projetos de desenvolvimento da agricultura, piscicultura e silvicultura, dentro de preceitos de sustentabilidade econômica, social e ambiental”.

Em sua rica existência pautada por inteligência, sensibilidade, arrojo e idealismo, César Baiocchi desenvolveu intensa atividade literária – e produziu também poemas de rara sensibilidade, publicados em periódicos esparsos. Seus contos inspiravam-se, sobretudo, na vivência de espectador e partícipe da vida dos pioneiros e dos candangos, população adventícia, meio rural, meio urbana, sofrida e obstinada, quase sempre solitária na luta pela vida. Em outros momentos, as narrativas se voltam para personagens simples, enredadas nas complexidades do mundo atual – algo perplexas, algo perdidas, sempre vistas com simpatia e compaixão.

 

Dentre outros de sua autoria, citemos os livros: Mais um ponto …depois de outros contos (1969); Sete mulheres de trinta e um olho d´água (1972); Boa ação e outros contos (2009); Quatro ondas do mar azul (2014). Obras que podem ser apreciadas por suas qualidades literárias e antropológicas, relatos que pulsam com a vida, os sonhos, as esperanças e a dura realidade do cotidiano em um mundo que se erguia do nada, nas solidões do Brasil interiorano.

 

O que nos leva a afirmar que a fronteira acaso existente entre a História e a Literatura é difusa em seus começos, e ainda bastante imprecisa nos dias atuais. Tanto uma, como a outra, têm por objetivo representar as experiências dos homens e suas inquietações, bem como responder às questões que são suscitadas a cada momento na trajetória da humanidade.

A curiosidade intelectual do ser humano leva-o a buscar a compreensão do mundo em que vive.

História e Literatura têm sua origem no interesse, que é universal, de conhecer relatos e racontos.  Na infância, privilegiam-se as histórias de fadas; entre os povos primitivos, entoam-se canções sobre mitos e deuses. Nas civilizações letradas, homens e mulheres deixam-se embevecer pelos relatos sobre os antepassados, assim como pelo enredo de gestas, fábulas, poemas, romances e textos teatrais.

Em um primeiro momento, os bardos evocaram lendas e heróis nacionais; dos poetas vieram os cantos sagrados, expressos na linguagem rítmica que consegue captar e transmitir a magia dos versos. Seguiu-se a narrativa em prosa, mais adequada para distinguir entre o mundo real e o imaginário, com vistas a separar as histórias da História. A prosa literária inicia-se com relatos sobre deuses e reis, que personificam valores da comunidade, tendo em vista a educação e a edificação das gentes.

Tanto poetas como prosadores cultivam a arte da palavra. Têm como produto final a “narrativa”, porque “narram”, recontam e falam sobre fatos e pessoas, sobre a realidade – uma realidade. Têm personagens, cenários, enredos e tramas, pelo que a tessitura histórica e a tessitura literária às vezes se confundem.

Claro está que existem especificidades que as singularizam, à História e à Literatura, e que as definem como saberes distintos. Entretanto, elas se aproximam no exercício comum da narrativa – “narrativa que se coloca no lugar da coisa acontecida, que é presentificação, que é uma representação” (Sandra Pesavento). Lembremos Paul Ricoeur: “a história é quase fictícia, no sentido da quase presença dos acontecimentos colocados diante dos olhos do leitor por uma narrativa”; enquanto a narrativa de ficção “é quase histórica”, na medida em que os acontecimentos irreais que relata são fatos passados para quem os coloca perante o leitor.

O historiador convive com a erudição, pois se utiliza de um instrumental teórico e fático que lhe permita estabelecer as correlações possíveis entre fatos diversos, de forma a revelar significados. De outra parte, “a literatura é produto da imaginação criadora, cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor o prazer estético” (Afrânio Coutinho).

Na atualidade, os grandes relatos históricos interpretativos entraram em declínio com a derrocada dos estados de bem-estar social e do socialismo real, dando lugar a uma sociedade mais individualista, em que se questiona o compromisso de pensá-la como um todo. No campo da história, as certezas foram substituídas pela dúvida e pela dispersão epistemológica – “Clio despedaçada?” – que enseja a revalorização dos atores sociais. Na história como na literatura, o sujeito recobrou importância.

 

Tais considerações vêm-me à mente neste momento marcante de minha vida, quando ingresso nesta Casa de Letras. Letras –  instrumentos poderosos que permitem a perpetuação da narrativa, tanto nas searas da Literatura, que diz respeito fundamentalmente a palavras, como no campo da História, que se nutre dos fatos e das personagens.

Trabalhando com pessoas reais na perspectiva do tempo, o historiador  subordina-se à disciplina das fontes e do método. O literato – sobretudo o romancista – inventa situações e personagens às quais atribui ações, pensamentos, sentimentos e palavras que parecerão reais ao leitor. “A atividade do romancista prolonga de certa forma a do historiador” – diz Charles Morazé –  porque exercita uma “tarefa de desmitificação”, qual seja, a de evocação do que seria a verdade.

Vista dessa perspectiva, a obra literária é um “tipo especial de fonte para o historiador – e o historiador um tipo especial de leitor da obra literária” (Pesavento). Ou, invocando Adorno: a literatura é historiografia inconsciente. Ao percorrer o texto literário, os olhos do historiador – olhos de Clio – podem enxergar mais longe. No exercício de seu ofício, ele elabora uma narrativa interpretativa do passado, com vistas à construção de versão coerente e aceitável do que teria acontecido em outro tempo. Tanto o romance, como o conto, a crônica, a poesia e o teatro poderão acrescentar algo mais ao já conhecido contexto histórico; pelo que, na literatura, o historiador vislumbrará subsídios que não encontra em outras fontes.

Como registro de sensibilidades que são contemporâneas do narrador, a literatura permite conhecê-las e resgatá-las, através da emotividade do prosador, do poeta, do teatrólogo. Na obra literária, o historiador procura a marca do tempo em que ela foi escrita; além do contexto e do fato, busca a humanidade da época, suas paixões e vibrações, bem como recapturar o sistema de valores, os conceitos e as ideias que pautam a vida das personagens e da sociedade na qual se inserem.

 

Minha presença nesta Academia dá-se quando é celebrado o Ano Cultural Bariani Ortêncio, homenagem a esse extraordinário personagem das nossas letras, folclorista, pesquisador e cronista, cuja obra se projeta além das fronteiras de Goiás. Ao homenageado, meus cumprimentos e admiração.

 

No convite para esta solenidade, sou distinguida com o epíteto de historiadora, que me é honrosamente atribuído pela ilustre Presidente, poetisa e cronista Leda Selma de Alencar.  Como visto, antecederam-me os pranteados Demóstenes Cristino e César Baiocchi.  Ambos cultores da palavra e da narrativa. Ambos, figuras de relevo na literatura que é feita em Goiás; ambos, testemunhas da sua época através da recriação estética. Na obra de ambos, a marca da sensibilidade e a marca do seu tempo.

 

A História de Goiás vem sendo escrita desde a primeira metade do século XIX e tem continuidade nos dias atuais, sempre de acordo com as ideias e correntes da historiografia em contínuo aggiornamento. É uma história que mergulha raízes no tempo de antes do achamento dos Goyazes – e, em grande parte, quase desconhecida ou ignorada pela História do Brasil semioficial, que ainda privilegia as regiões litorâneas.

É uma história permeada de beleza, de coragem, de criatividade, sobretudo de resistência. Resistência do nativo ao colonizador – e esta vem sendo reconhecida em sua dimensão dramática. Mas, também, resistência do colonizador à regressão cultural que o desafia e tende a esmagá-lo, na distância dos horizontes vastos, dos caminhos sem fim, dos dispersos aglomerados populacionais desse imenso arquipélago urbano que se formou na boca das minas, nos pousos de tropas, nos patrimônios e nas corrutelas.

Goiás como baluarte avançado da civilização no rumo do oeste – no preservar a língua portuguesa, no transmitir as orações e a ética do cristianismo, no forjar uma cultura plural e identificada com a cultura brasileira em permanente construção.

 

Não me deterei – nem é a hora de fazê-lo – nas obras e nos autores da historiografia goiana, conhecidos dos ilustres titulares desta Casa, alguns dos quais também historiadores – como o foram, com brilhantismo, Colemar Natal e Silva e Zoroastro Artiaga.  Lembremos, porém, com Marc Bloch, que a história é filha do seu tempo. Seu objeto não é propriamente o passado, mas o homem, mais precisamente os homens no tempo. Sem nunca deixar de aliar o passado com o presente, uma vez que as indagações do presente são o que fazem o historiador voltar-se para o passado.

 

Creio que muito haverá para fazermos juntos – com temas e personagens da História de Goiás, inesgotáveis e apaixonantes. Assim como apaixonante é a própria História em permanente processo de reelaboração, seja à luz de novos documentos, seja de novas ideias e teorias inovadoras.

Sempre me pareceu instigante o apelo dos arquivos inexplorados que guardam a voz das eras passadas. Confesso-me motivada pelo desafio que representam – e espero ainda dispor de forças para continuar a trabalhar com eles, já agora na companhia dos confrades e confreiras desta Casa, inspirados pelos fastos e pela beleza da História de Goiás.

 

Seja esta minha profissão de fé e meu compromisso, em retribuição à generosidade com que me acolheu a gente goiana e, em particular, esta Academia Goiana de Letras.

 

A todos, muito obrigada pela presença, inclusive aos meus familiares – Floriano, companheiro de todas as horas; irmãos, filhos, noras, genros, netos e sobrinhos. E que Deus nos abençoe a todos nós.

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