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Nasr Nagib Fayad Chaul

Nasr Chaul é historiador e compositor. Sucedeu o acadêmico Humberto Crispim Borges.


Data de nascimento: 30/05/1957

Data de posse: 08/09/2016

Cadeira Nº 03

Posição: 4° ocupante

Indisponível.

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DISCURSO DE POSSE

PORQUE TUDO QUE EU INVENTO JÁ FOI DITO
NOS DOIS LIVROS QUE EU LI
AS ESCRITURAS DE DEUS
AS ESCRITURAS DE JOÃO
TUDO É BÍBLIAS
TUDO É GRANDE SERTÃO.
Adélia Prado

Exmo. Sr. Governador, Marconi Ferreira Perillo Junior, Senhora Presidente da Academia Goiana de Letras, Acadêmica Leda Selma de Alencar, Ilustres Integrantes da Mesa Diretora desta Sessão Magna, Prezados Acadêmicos e Acadêmicas, Senhoras e Senhores, Queridos Familiares…

A honra de pertencer à Academia Goiana de Letras, Casa de Colemar, significa para mim o coroamento do trabalho de uma vida inteira dedicada à História e a Cultura de nosso Estado. É uma alegria que poucos podem compreender pela sua dimensão, é o resumo da ópera eivada de significados, um ponto final em forma de reticências, a dialética expressa entre teses e antíteses, filosofia sem grandes teorias que nos abrem porteiras sensoriais da emoção.

É bom de sentir, viver, contemplar… Pertencer aos quadros da Academia Goiana de Letras, no Ano Cultural Bariani Ortencio, é como atravessar a ponte entre o que você fez na vida para o que você pode fazer da vida, é estar ao lado de amigos de longas datas, ídolos literários, guerreiros e guerreiras em prol da cultura que sempre travaram o bom combate. É se tornar cúmplice de projetos e histórias de homens e mulheres que você sempre admirou nos livros que leu, nos personagens criados, nas poesias emocionadas, nas histórias compartilhadas, reconhecidas ou questionadas. Se há um começo metafórico, emerge do compartilhamento com Marcel Proust, quando disse: “Só a Metáfora pode dar uma espécie de eternidade ao estilo”.

Por isso, hoje é para mim e minha família, um dia mais do que especial. Hoje é um marco numa trajetória de vida deste neto de imigrantes árabes, da querida cidade de Catalão, que percorreu cidades interioranas, por este Goiás afora, na garupa de um pai, juiz de direito, e de mãe mais que zelosa. Entre sertões e cidades meu olhar se edificou e, nos anos 70, vim morar em Goiânia, cidade que estudei e amei entre Histórias e Vida.

Nessa trajetória entre o Direito, a História e a Música, chego hoje a esta prestigiosa casa de cultura, ocupando a cadeira de no. 3, patroneada pelo Pe. Luiz Gonzaga de Camargo Fleury. Ao adentrar a rica vida deste homem de mil tarefas, gostaria de agradecer a Leda Selma, Luiz Aquino e Adriano Curado pelo material disponibilizado ou sugerido para nossa pesquisa.

Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury nasceu na antiga Meia Ponte, hoje a histórica e bela Pirenópolis, nos idos de 1793. Foi Padre, Comendador do Império, Membro da Junta Governativa de Goiás, Presidente da Província Goiana, Deputado Provincial e Geral e ainda Redator do primeiro jornal que tivemos, obra e graça do Comendador Joaquim Alves de Oliveira, A Matutina Meiapontense. Um homem e seus múltiplos afazeres. Brilhante intelectual, cuja fé no ofício não o impediu de realizar sonhos e constituir herdeiros, não poucos, mesmo sendo padre.

Em São Paulo cursou Filosofia e Teologia, onde, em 1817, recebeu as ordens de prestígio do hábito de São Pedro. Meia Ponte recebeu o jovem, pleno de ideais liberais ecoados pela Europa e, como não podia deixar de ser, a política criou em sua vida um imã de atrativos. Adriano Curado destaca que “ é bom lembrar q ele sempre foi ligado à vida política, motivo pelo qual sua vida religiosa ficou em segundo plano e ele manteve o cargo de pároco-coadjutor de Pirenópolis”.

Os ventos de uma expectativa de modernidade se anunciavam pela Terra Brasilis na primeira metade do Séc.XIX. O país vivia a crise do setor agrícola com ampla dependência inglesa e queda nas exportações, abalando sua vida econômico-financeira com reflexos na política, onde cresciam os movimentos pelo fortalecimento da independência política. Em 1816 tivemos a anexação do Uruguai ao Reino Unido do Brasil, a chamada Província Cisplatina, correspondendo aos sonhos de expansão da monarquia absolutista portuguesa. Em 1817 tivemos a Insurreição Pernambucana, primeira experiência republicana no Brasil, onde os proprietários de terras enfraquecidos com a crise do preço do açúcar, aderiram aos revolucionários e formaram um governo com uma constituição provisória. O movimento foi esmagado e seus líderes enforcados. Em 1821 a Revolução do Porto em Portugal, exigiu a volta de D.João VI à terra natal, deixando seu filho Pedro, o Príncipe Regente no Brasil, que, em 1822, resolve permanecer nas terras de cá, no conhecido Dia do Fico.

Tivemos ainda a Confederação do Equador em 1824 e um ano depois ao tratado com a Inglaterra reconhecendo a independência do Brasil seguindo a Abdicação de D.Pedro ao trono, as Revoltas dos Farrapos e dos Cabanos no Pará e no Rio Grande do Sul, respectivamente, e a luta pela Abolição, chegando ao fim do tráfico de escravos com o Bill Aberdeen em 1845 e a Abolição em 1888. Era este o painel do século XIX que nosso patroneado viveu em boa parte dos acontecimentos ou por eles foi influenciado, pelo menos até 1846, ano de sua morte.

Em meio ao burburinho político do Brasil da primeira metade do século XIX, eivado de revoltas internas, Portugal determinou a criação em Meia Ponte de uma Junta Governativa, da qual o Pe. Luiz Gonzaga Fleury fez parte em 1822. O processo histórico desaguou, assim, na Independência em 1822, possibilitando que o Norte da Província de Goiás se arvorasse a transformar Natividade à categoria de Vila, Capital da Província do Tocantins, o que demonstra que a ideia de separação de Goiás e Tocantins, realizada só em 1988, tinha raízes históricas.

Pe. Luiz Gonzaga Fleury, foi o encarregado de dissolver a rebelião através de um acordo com os revoltosos, usando sua experiência e o respeito eclesiástico. Em 1823 prendeu o líder local e dali “prosseguiu para Natividade, a capital dos revoltosos onde adentrou com as bênçãos do povo humilde da região e, pregando o Evangelho, narrando a realidade nacional, contando da inviabilidade do projeto de emancipação do norte, conseguiu convencer os insurretos a abandonar seus propósitos”.

Teve também sua intermediação, nas fronteiras do Maranhão, em 1823, da mesma forma e com o mesmo sucesso. No ano seguinte foi escolhido membro do Conselho Administrativo Provincial. Um homem e suas múltiplas ações, entre os conflitos dos povos e seus conflitos internos, entre as revoltas e a fé.

Quando o Comendador Joaquim Alves de Oliveira em 1830, resolveu trazer da Europa o maquinário para produzir o primeiro jornal do Centro Oeste, a Matutina Meiapontense, que, em nossa gestão na AGEPEL, transformamos em CD-Rom num precioso trabalho do saudoso Jacy Siqueira, almejava o Comendador reproduzir e traduzir o mundo para Goiás, não teve dúvidas de que era o Pe.Luiz Gonzaga Fleury o seu redator chefe. Juntos estiveram também na fundação da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional em 1832, visando acalmar os ânimos dos conflitos pós independência naquele ano.

Nosso patroneado foi ainda Vereador, Juiz Municipal no final da década de 1830, Presidente de Província nomeado por Diogo Feijó, de quem era amigo pessoal, Deputado na Assembleia Geral. Um homem múltiplo entre a fé e a política. Um homem múltiplo também entre a fé e a família. Era grande a tolerância da Igreja no Brasil Imperial com o fato dos padres constituírem famílias. Com Pe. Luiz Gonzaga Fleury não foi diferente. Deixou numerosa família: 10 Filhos, sendo 4 mulheres e 6 homens com três mulheres com quem se amasiou ao longo da vida. Um homem e seus múltiplos amores.

Como já destacamos, Pe. Luiz Gonzaga de Camargo Fleury faleceu em Pirenópolis em 1846 aos 53 anos, deixando uma enorme folha de serviços prestados em diversas áreas do conhecimento e em múltiplas atividades. Um homem e suas múltiplas heranças. Como diria Bertold Brecht: há homens que lutam um dia e são bons, há os que lutam muitos dias e são melhores. Há os que lutam toda uma vida: estes são os imprescindíveis. Pe. Luiz Gonzaga de Camargo Fleury: um homem e suas múltiplas lutas.

O último ocupante dessa honrosa cadeira, que hoje passo a ocupar, foi o escritor, médico e militar, Humberto Crispim Borges, autor de, entre outros livros de contos, “Chico Melancolia” e “Cacho de Tucum” (1970), este primeiro premiado pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos em 1967.

Humberto Crispim Borges nasceu em Anápolis em 06 de junho de 1918, quando a Primeira Grande Guerra se findava, uma guerra eminentemente Europeia, mas de proporções globais. Iniciou seu curso de Medicina em Belo Horizonte e em 1940 entrou para o 6o. BC – Batalhão de Combate – de Ipameri, no que, à época, chamava-se CPOR, Curso de Preparação de Oficiais da Reserva, em abril de 1941, em plena Segunda Grande Guerra, curso que durou até 1943, auge da Grande Guerra. Logo foi declarado Aspirante a Oficial da Reserva de 2a.Classe e, depois, a 2o.Tenente, convocado ao serviço ativo em março de 1944 no 10o. BC em Porto Seguro, Bahia. Em Dezembro de 1945 foi promovido 1o. Tenente, transferido para a terra de Tancredo Neves, São João Del Rei, Minas. Ingressou assim, na ativa do Exército, em fins da Segunda Guerra Mundial, momento em que as atividades, mentes e carreiras estavam afinadas com a vida militar. Em 1968, após cumprir toda a trajetória da hierarquia militar, chegou ao posto de Tenente Coronel.

Ao longo de sua vida podemos destacar, além da carreira militar descrita, ilibada e coroada de êxitos, sua grande capacidade intelectual, refletidos em “Chico Melancolia” e “Cachos de Tucum”(1970), onde o escritor criativo ocupa os espaços de vida que criaram um paralelo fundamental ao lado da carreira militar.

Destacada também em sua biografia é a dedicação familiar, estabelecida com a mesma rigidez do quartel na condução de seu papel de esposo, pai e avô, tendo convivido com a perda precoce da esposa em 1961, dedicando-se, então, aos cinco filhos, o mais velho com 11 anos e a caçula com apenas dez meses à época. Mergulhou de vez na literatura.

Em reportagem do Jornal O Popular de 1972, sobre sua Posse na Academia Goiana de Letras, caderno especial editado pelo saudoso Modesto Gomes, Altamiro de Moura Pacheco, assim reverencia suas obras: “ ideias bem apresentadas, onde a finura da ironia se enlaça com a suavidade da expressão, demonstram, segundo opinião dos helenos, resistir na forma e na proporção o segredo da beleza.”

Em “Cachos de Tucum” temos a história de Quim e seu padrinho, dois pescadores de sorte desiguais. Em o “Piloto Solitário”, mesclam-se o riso e a ingenuidade, terminados em tragédia e tristeza. “Igualmente, em Chico Melancolia, já consagrado pela crítica, os lavores que o elevam à categoria de obra recomendável pelo muito do linguajar goiano, dispensam maiores comentários…à comovedora história de Chico Melancolia, o figurante que, funestamente, se transformou em protagonista”.

Seguiram-se História de Anápolis, 1975, Retrato da Academia Goiana de Letras , 1977, o Vale das Imbaúbas, 1979, Generais Goianos, 1979, Moisés Santana- Vida e Obra, 1980, História de Silvânia, 1981, Chico Trinta, 1982 e Americano do Brasil-Vida e Obra em 1982.

Após ser transferido para a Reserva de Primeira Classe como Tenente Coronel em 1974, foi diretor financeiro da CAIXEGO em 1974, entrando para o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás nos idos de 1976, ocupando a Cadeira 16, cujo Patrono foi José da Cunha Matos.

Seguiram-se ainda obras entre Contos e Romances: Padre Sousa ao Rio Tejo,2000, Vultos Bonfinenses,2001, Fogos no Céu, 2003, Reminiscências do Verde Oliva, 2004 e Brinco de Rainha em 2005.

Temos entre nós um elo de ligação, destes que flutuam entre as surpresas e as curiosidades da vida. Assim, meio pelo acaso, no paralelo das sutilezas que os labirintos nos envolve, Dr. Humberto Crispim foi acionado um dia qualquer a colaborar com a liberação de um jovem que almejava estudar música no Rio de Janeiro e se tornar Maestro. Sabendo do potencial artístico daquele rapaz, cooperações militares foram acionadas e ele pode então seguir sua carreira, graças à sensibilidade de Dr. Crispim. Assim, o jovem foi dispensado do Serviço Militar por razões que não cabe aqui revelar. Na época era necessário um bom esforço para “fugir” do serviço militar obrigatório. Este rapaz, livre deste desiderato, pode ir para o Rio de Janeiro e estudar Direito e Música. Anos depois, 1982, já amigos, mandei-lhe uma letra de música e na tentativa saiu uma outra melodia que me foi encaminhada para letrar. Nasceu ali “Saudade Brejeira”, minha com o Maestro José Eduardo Morais, com um dedo precioso do Dr. Humberto Crispim Borges. Soube, depois, que os dois, José Eduardo e Dr. Humberto Crispim comungam da mesma bisavó, Mathildes da Cunha Telles. Coisas da vida e do mundo de nossas goianidades.

Trago para minha nova casa preocupações históricas sobre as quais me debrucei ao longo de meus estudos, principalmente em meu Doutoramento na Universidade de São Paulo nos anos 90, onde defendi a Tese Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade, hoje em sua 4a. edição. Dentre os diversos temas ali discutidos está o que mais me encanta: A Identidade Cultural de nossa gente.

Esta Identidade Cultural está intimamente ligada aos seus preceitos históricos, bem como à formação da memória e seus legados, nem sempre representantes da sociedade edificada e, às vezes, tradutora incorreta da visão que o próprio povo tem de si mesmo. Afirmei tempos atrás que Goiás se parece muito com Minas. Temos a mesma ausência do mar, o mesmo luar do sertão, montanhas e minérios e achamos as coisas um “trem-bão” em cada coisa “boa demais da conta”. Mas o ouro nos legou heranças provinciais distintas. Portanto, para falar de Goiás é fundamental notar que temos particularidades históricas que não nos deixa ser um mero reflexo das transformações ocorridas em nível nacional. Nem por isso somos assim tão distintos. Para se compreender esse processo de construção da identidade goiana é necessário retroceder pelos caminhos dos viajantes europeus que passaram por Goiás no século XIX e deixaram uma imagem que não explica a Goianidade mas consegue deixar clara a ideia de Goianice, termo pejorativo com o qual se vislumbrou Goiás e sua gente.

Histórica e Culturalmente foi nos impingido uma herança e uma memória como se tivéssemos nascido de fato em 1722 e ficamos sem pai nem mãe. Esse buraco negro de nosso passado pré-aurífero é apenas lembrado, tangenciado pela produção acadêmica, relegado ao rol do desinteresse. Tudo começa com o ouro. Pior: tudo acaba também com o ouro.

Em Goiás, caminhando pelos relatos dos viajantes, cronistas, governadores e historiadores, a distância de cada olhar se torna maior que o caminho das interpretações. As picadas e trilhas formaram, ao longo do processo histórico, um mapa quase invisível de latitudes interiores, por onde Bartolomeu Bueno, o filho, procurou-se guiar e os historiadores de toda cepa procuraram nos remeter, dando nos rótulos, estigmas e heranças imerecidas de como deveríamos ser ao olhar do outro.

Com o esgotamento do ciclo aurífero, criou-se um estigma de decadência que passou a permear todas as análises que foram feitas sobre a História de Goiás. Hoje, peneiradas na bateia do tempo, temos o duro cascalho da História, mesclado com as pedras no meio do caminho da interpretação, e uma herança mineratória, registrada sob o signo atávico do ócio, do atraso, do isolamento. Os viajantes que passaram por Goiás com seus olhos embotados de realidades européias conseguiram vislumbrar um aspecto comum: a decadência da Capitania.

Por isso a identidade goiana está intimamente ligada com os caminhos do processo histórico de Goiás, passando pelos veios auríferos da Capitania e pela “decadência” construída pelos viajantes europeus ao vislumbrarem a sociedade goiana do pós-mineração.

Esse estigma de terra do “atraso”, da “decadência”, do marasmo e do ócio, serviu para se identificar o goiano – e criar o que chamaríamos de goianice – por vários séculos, até que outra construção e outro estigma os substituísse, a ideia de modernização em forma de progresso apregoado após o movimento de 1930. Através do viés do progresso os arautos de 30 procuraram reconstruir a imagem de Goiás e imprimir uma face mais contemporânea ao Estado, o que poderia ser visto como a tentativa de inserir a região na construção da Nação.

Assim, a título de representação, a “Goianice” nos remete à época em que a ideia de “decadência” serviu para rotular o contexto da História de Goiás após a crise da mineração, enquanto que o que chamamos de “Goianidade”, nos indica a construção da ideia de modernização através de uma de suas representações, o progresso, fruto dos projetos políticos-econômicos do pós-30 em Goiás. A “goianidade” abrange uma época em que se procura mesclar o “velho” e o “novo” , fundir o “antigo” e o “moderno” , envolver o rural e o urbano e confluir o “atraso” e o “progresso” pelos caminhos da História.

Culturalmente, porém, somos fruto de uma mestiçagem maravilhosa, resultado dos elementos que nos compuseram e nos legaram um potencial fantástico de traços culturais entre o índio nativo, o negro africano e o branco europeu, traços estes que podem ser encontrados da literatura às artes plásticas, passando pela música e pela dança. Somos o arquétipo do desejo da realização, a vida comunitária dos índios que os hippies tentaram um dia adotar, somos a secular batucada e ritos africanos, onde os Calunga nos guardam desde tempos imemoriais. Somos a modinha lusitana nos saraus de Vila Boa, o traço europeu nas óperas dos barracões de Meya Ponte, hoje, somos ainda a herança espanhola ou portuguesa das Cavalhadas, a viga mestra do cristianismo na Procissão do Fogaréu na Cidade de Goiás e somos mais ainda nós, os goianos, os homens pardos de que nos falou Luiz Palacin, na catira, nas folias de Reis e do Divino ou na Dança dos Congos de Catalão.

Aprendemos a ser musicais, afro-musicais, euro-musicais, pardo musicais. Bandas como a Corporação 13 de Maio de Corumbá de Goiás ou a centenária Banda Phoenix de Pirenópolis, reproduzem nossa melhor herança musical dos séculos XVIII e XIX. As mãos auto didatas de Veiga Valle teceram arte em santos barrocos de Meya Ponte a Vila Boa. Hugo de Carvalho Ramos traduziu a sociedade agrária goiana com engenho e arte entre Tropas e Boiadas que foram depois conduzidas por Bernardo Elis, Carmo Bernardes e José J. Veiga que lhe deram sobrevida, pela vida que cedo lhe faltou. Cora nos deu poemas que transformaram a casa velha da ponte em um símbolo capaz de representar uma cidade patrimônio mundial. D. J. Oliveira, Siron, Cléber, Ana Maria Pacheco, Poteiro, Amaury Menezes, Roos, Solá, Pitágoras, Godá, dentre tantos nos traduzem para o mundo, mas foram buscar suas raízes em Confaloni e este nos índios.

Somos tanto frutos culturais de nosso processo histórico que o samba não se fixou tanto na cultura local e talvez encontre eco na afirmação de Palacin de que o fim da escravidão quase não alterou em nada nossa economia pois tínhamos pouco mais de 4 mil escravos por todo o antigo território goiano. Companhias de dança como a Quasar são capazes de atravessar mundos e falar a mesma linguagem de outros povos no sentido contemporâneo da dança. São capazes de traduzir nossa realidade de capital extremamente moderna em art déco dos anos 40 do século passado, cravada em pleno interior que era Campinas, daí o fruto da capital mesclada ao interior, do urbano com o rural, do sertão e do litoral, do campo e da cidade.

Portanto, não necessitamos de conformidades, de sermos frutos de um passado incompreendido por olhares europeus. Não somos os resultados culturais nem da decadência econômica nem do atraso imposto pela análise acadêmica. Por fim, a construção de nossa identidade cultural está intimamente ligada à desconstrução das interpretações equivocadas de nossa História, bem como do reconhecimento do papel que os imigrantes desenvolveram em nossa terra, principalmente a cultura árabe que pode ser considerada a que melhor se entrelaçou com a cultura goiana, apesar dos continentes e tradições que as separam. O universo familiar, o estilo cordato de ser e de comportar, o carinho interpares, a tradição alimentar, o apego à religião, entre tantos outros fatores, até mesmo os ligados ao trabalho e à produção.

Assim, será a partir da rediscussão dessa ideia de “decadência” e que vislumbraremos a construção da ideia de modernização enquanto progresso, buscando a identidade goiana, a goianidade, que permeou toda a História de Goiás após o movimento de 30. Após 1930, era necessário inserir a Região na Nação. O resgate que os grupos dominantes do pós-30 fizeram das ideias acima expostas e o uso político-ideológico destas na construção da imagem de “um novo tempo”, de um “novo Goiás que emergia” , de um “Estado Novo” que solucionaria os problemas gerais do passado, de uma “nova capital” em consonância com os interesses dos grupos políticos em ascensão, puderam traçar o perfil da goianidade que iria se transfigurar na brasilidade apregoada no período.

Para que pudessem ascender ao poder em nome da modernização, os representantes políticos no exercício do poder pós-30, associaram-se a todo o manancial de ideias que atestavam a “decadência” e o “atraso” de Goiás, julgando-as como as representantes dos velhos tempos. Urgia, assim, conduzir Goiás ao seu destino maior, de desenvolvimento e progresso, sob o signo da Goianidade reconstruído valorativamente sob o espólio depreciativo da Goianice do século XIX.

Compreendendo historicamente nossa goianidade estaremos entendendo melhor o sentido cultural do sertão, do cerrado goiano, da ideia síntese que nos deu Vila Boa de como se manter quase intacta para ser moderna, como se preservar para ser eterna, como sendo tão antiga ficou maior que sua algoz, Goiânia. Por tudo, acredito que alguma nuance cultural pode nos unir em termos de Centro Oeste ou Brasil Central, permeando por sobre o nosso processo histórico, por sobre a batida de uma viola, uma dança indígena, uma herança arquitetônica, uma forma indivisível de como continuar fazendo parte dos desafios do Brasil Central.

Por fim, História e Música sempre fizeram parte de minha vida. Segui os dois como a busca do sertão e a sonoridade da vida, como pontas indissociáveis entre razão e coração. Na música como na história Goiás pulsou forte em todos os sentidos. Um romance pleno, inacabado. Cantei o sertão, o amor, as cidades, a vida. São mais de 200 canções gravadas e me orgulho de cada uma delas, de cada parceiro, de cada intérprete, de cada melodia que traduzi em palavras. Sou grato ao amor de minha mulher e filhos. À minha Cirene, fonte de tanta inspiração, luz do sol do meu amor. Aos filhos meu apreço pelo sentido da vida que nos permite não acabarmos em nós mesmos. Ao meus sogros Francisco Rodrigues e Jacira Aires,hoje aqui no papel de pais, meu imenso carinho e admiração. Aos meus irmãos Nagibe e Rômulo, meu apreço e amor fraterno. A vocês, Jacirene, Rômulo, Rodrigo, Rhafael e Lorena pelo apoio, carinho, suporte e paciência. Vocês eternizam meu coração!

É preciso destacar que , ao longo da vida, não seria possível chegar a esta douta Academia sozinho, ninguém chega por si a nenhum lugar. Ao governador Marconi Perillo pela confiança em quatro mandatos ocupando cargos ligados a cultura de nosso Estado onde, junto com nossas equipes, pudemos ajudar a elevar a auto-estima de nosso povo pela sua exuberante cultura. À Faculdade de História da UFG, onde me aposentei em 2015 com ampla folha de serviços prestados e que me possibilitou pesquisar, publicar artigos e livros, ministrar aulas em todos os níveis e elevar minha formação profissional.

Aos confrades e confreiras, obrigado por me receberem com tanto carinho e uma votação unânime. Uma casa nova, a Casa de Colemar, minha nova casa, velha conhecida, onde espero ser um a mais em meio a tantos e honrá-la com trabalho, participação e muita dedicação. Certa vez escrevi numa canção que “pela estrada eu aprendi que não tem pra onde ir, se não tem pra quem voltar”.

Obrigado pelos braços abertos.
Goiânia, 08 de setembro de 2016.

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