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OS PASSOS DA CIDADE

Publicado em 30 de julho de 2018

01: A cidade é um hábito, feito o acordar das luzes,

abre-se e fecha-se em ruídos colhidos da boca das noites.

Ah! O disforme mundo flutuante da pressa de viver!

Lembro-me de alguma infância, não a minha, talvez, que

nunca existiu. Mas a dos meninos que corriam pelos campos

a descamparem nascentes, a jurar que viram peixes voadores

a voarem por aí, em perdição de infinita beleza.

 

02: Não, não havia tédio. Havia, sim, o movimento lento

do tempo, maior em certos dias, como se cantasse

canto mudo do qual ninguém mais se lembra.

O frescor da chuva a subir pelos ares, igual às palavras,

igualàs horas atiradas pelas janelas por onde começam

as manhãs.

Então, como se nós, nós mesmos acendêssemos o sol,

podia-se olhar o mundo de perto e ver as mínimas revelações

da natureza em festa.

 

03: Perde-se a cidade em pecados imortais.

Também se tem dias alegres, poucos, como se sabe,

Mas, se tem. Alguns postiços, outros saídos da alma.

Ri-se menos agora. Não há motivo para tantas risadas.

Mata-se mais. Dorme-se menos. Enlouquecidos, os

relógios dão vago alento de que trabalham mais.

Correm, atropelam-se os ponteiros e fingem parar

por um tempo. No entanto, correm em desespero.

 

04: A leveza das manhãs ilumina o mundo alegre

dos pássaros, arrasta gosto de mar pelos caminhos.

Guardam a linguagem das noites e se dizem mar,

e vai ao mar tudo o que se esconde e o mais que

se saiba.

Afinal, é a luz desta manhã que me faz

ver a beleza do que é indefinido.

Então, deixe que a vida viva a vida em seus

miúdos momentos. Deixe correr a lentidão

dos dias, como se fora doce rio, sem os

ventos da tempestade, sem  o despertar

do sono dos rios que dormem inocentemente

sobre as pedras, as folhas, as sombras, o verde

no amplo espaço de seus braços.

por Miguel Jorge.

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