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A GAIOLA

Publicado em 30 de julho de 2018

Porque minhas tranças estavam macias e lustrosas, a pele de meu rosto sabia a fruta veludosa, fresca e furta-cor, deitei-me naquele dia sob a telha de vidro da gaiola, na longa rede cheirosa de sabão preto feito em casa mesmo. Foi esse o início de um destino esquerdo, que me marcou a testa a fogo e me fez arrastar uma banda do coração como um toco de carne empedrado pela vida afora. Daí mais um pouco fui embranquecendo os fios do cabelo da fronte, e meus olhos acharam por bem esburacarem-se parecendo pôr fim a dois lagos meio verdes meio azuis, esfumaçados pela neblina que saía da chaminé daquela casa onde, à beira do fogão, encostei meu umbigo temperando as sopas dos meninos e pondo o leite pra ferver, porque desde cedo me secaram as tetas e o jeito era recorrer ao leite das cabras do quintalão de pedras e, também , porque minha bisavó, que ainda falava e orava com um fio de voz e se cobria num canto do quarto escuro, como uma mancha no ermo, dizia e repetia que crianças de dentes fortes e olhos vivos devem beber leite de cabras já que as mães se secam muito cedo, por dentro e por fora de tanto arrancarem pedacinhos de carne e sustança do suco de ossos e sangue para sovar o dia do marido que devem chegando, levantando a voz como se nascesse rei e o bando de filhos seus primeiros súbitos.

E alisava o bigode e a traseira das ajudantes da mãe de olhos afundados e sempre prenhe e murchada no silêncio, e mesmo que se desse corda nos relógios, eles pouco diziam.

Naquele atropelo, nem sabia mais se seria eu aquela de tranças macias, com enormes riscos de ouro ou se era aquela da parede suspensa na fotografia oval de minha tia, já entrada em anos, tenho um xale preto nos ombros e um véu cheio de buraquinhos e muito escuro lhe tampando o olhar e de fora os beiços que mais se afinaram, porque pararam de rir antes da hora.

E o homem de botas chegava pronto para o almoço e queria as travessas areadas na mesa de forro branco, e que não demorasse o vinho e que não fizessem barulho para não o atrapalhar a ouvir o próprio mastigar e que não interrompessem seus pensamentos sérios, porque só ele quem pensava na casa e o resto era gente feita de barro duro e mole, mas que de alguma forma servia-lhe para ajeitar a cama, a mesa, o banho e as necessidades mais urgentes, porque as derradeiras podia arrumar nalguma esquina, de preferência aquelas casas onde as moças nem eram tristes nem eram alegres, mas deitavam tendo sempre um perfume adocicado nos dedos cheios de anéis de pedras de cores meio foscas, pois muitas vezes quando lavavam roupa dos filhos se esqueciam de tirá-los e deixá-los sobre a mesinha-de-cabeceira junto ao chá de erva cidreira, que é minguador do nervoso de cada dia.

E foi entrando o tempo pra lá pra cá, tecendo um rendado feito as cortinas costuradas nas janelas da sala de visitas. E minha voz, que já pouco falava, foi emudecendo de fora para dentro e no que mais emudeci, perdi o jogo da cintura e o gosto da língua. Comecei a repousar três vezes ao dia, sempre de lado, porque abriu uma rosa muito macia e dolorida do lado esquerdo; todo cuidado é pouco, porque, se ferisse a flor, a carne de meu próprio corpo tremia tanto, que poderia cair no assoalho mais parecido a um espelho de tanta cera. Pouco é a minha valia e serventia agora e, por isso, passei a ficar no escuro, embora não chegasse nem à metade da idade de minha bisavó, que ainda vivia e num fio de voz orava e danava com as coisas das quais não apetecia.

Minha mãe, por ser morena como uma índia, nunca dormia é feita de sereno não cansava de trabalhar nas tarefas de agulhas, fazendo uns panos compridos, outros coloridos e enfeitando a casa da família inteira. Ela até se misturava com o sol, que nascia e que entrava, não parando a sua labuta, a não ser por poucas horas, quando o silencio e os cachorros no escuro sentiam que a noite era pesada demais.

Por causa dos quefazeres todos e do aloite com a vida, minhas veias murcharam nos braços e as coisas me caíram das mãos dado à fraqueza que rodeava meus pulsos.

De vez em quando, alguém entrava no quarto e bem eu ouvia ”precisa de alguma coisa?”, mas o que eu precisava ninguém me dera nunca, desde que vagi primeiro. Também a minha voz pouco queria sair e quem perguntava nem sabia se haveria resposta ou estava com pressa, já fechava a porta atrás de si, e nem que eu gritasse não ouviria mesmo. Mas eu não gritava nunca, aliás, pouco gritei enquanto mais forte.

Foi por isso que no espelho do quarto me vi pela última vez, com jeito de quem veio errado viajar no mundo.

O espelho ainda está lá pendurado, mas as janelas abriram e as moças, filhas das filhas que carreguei no ventre, se olham nele mas não abaixam as pestanas, nem calam a boca. Pelo contrário, falam muito umas com as outras e com os homens lá delas. Até que não me preocupo mais, quase nem é preciso, porque essas moças abriram as portas e janelas, arejaram a casa e nem todas vão se deitando sob a telha de vidro enluarada nem ficam encantadas feito bonecas de louça quando lhes alisam os cabelos e os pelos. Elas abriram todas as janelas e vejo que o sol entra com vontade, deixando um rendado nas tábuas, de modo que os piados delas são fortes o bastante para que não as fechem na gaiola nem a dependurem no caibro mais alto da varanda, igual foi acontecido comigo e muitas mulheres de minha geração e de muitas outras gerações antes de eu nascer.

por Augusta Faro.

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