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A inteiramente outra

Publicado em 2 de fevereiro de 2017

Olegária arregalara os olhos como se estivesse diante de um fantasma. A moça, ao vê-la, abraçou-a como se fossem amigas de longa data. Mesmo com uma memória de elefante, não se recordava de havê-la visto antes; mas tinha de fingir-se amável até conseguir descobrir-lhe o nome e restaurar a imagem perdida. Mas, o diabo da pergunta costumeira veio sem que ela esperasse:

– A senhora não se lembra de mim? Fui sua aluna no curso de Letras!

Olegária sentia-se traída. Acreditava que a face daquele ser se perdera nos espelhos das águas. Via-se uma mulher revoltada contra os próprios limites e, principalmente, por ter de se manifestar, pela primeira vez, incapaz de reconhecer uma ex-aluna.

– Não se preocupe, Professora! Até meu namorado, que estava na Europa, ficou meio perturbado com as minhas transformações. Passei por uma série de cirurgias estéticas, pois me sentia envelhecida. Eu sou Alélia. Tinha quarenta anos e consegui voltar aos vinte, com a experiência de uma mulher madura!

– Menina! – Olegária engolia palavras, com medo de ofendê-la!

– Eh! Fiz omatoplastia e blefaroplastia nos olhos e retirei aquelas olheiras roxas e rejuvenesci as pálpebras. Meus olhos, que eram castanhos receberam uma lente azul, mediante uma oftalmoplastia. Realizei meu sonho. Meus cabelos, antes pretos, receberam implantes, ficando com luzes permanentes. Meu nariz, extremamente chato, passou por uma rinoplastia e ficou afilado e arrebitado, como o da Angelina Jolie. Meus lábios, finos e roxos, receberam um enchimento em uma queiloplastia e se transformaram nos lábios da Aline Moraes. Aquelas orelhas grandes e cabanas, semelhantes ao Esminteu da mitologia, sabe, harmonizaram-se com a face. Foi uma dolorida otoplastia; mas pagou a pena, já que minha alma não é pequena! A face, já meio enrugada, sofreu uma ritidoplastia, a fim de recuperar o rosto de ontem, impossível ao ser lírico do poema Retrato. Lembra-se?  Minhas mamas, pesadas e em queda vertiginosa, adolesceram-se. É o milagre da mamoplastia. Os rapazes dizem que estou dez!

A minha barriga, protuberante, cheia de estrias, passou por três lipoaspirações e por uma dermolipectomia, e adquiri esta barriguinha da Vênus de Milo. O bumbum, caído e cheio de estrias, recebeu uma carboxiterapia especial. Uma cicatriz, decorrente do tombo de uma árvore, pois eu era muito traquina, desapareceu por intermédio de uma bioplastia. Ficou tudo parecido com aquele da Jennifer Garner. As pernas, cobertas de varizes, foram atentamente modificadas por raios lazer, mediante uma quirsostomia, ao ponto de, agora, assemelharem-se às da Sharapova.

Olegária, muito pudica, olhava ao redor. Meu Deus, essa mulher ficou louca. Quem te viu e quem te vê! Durante todo o curso a tive como mulher de bom-senso! Até onde vai a vaidade? Além disso, perdeu a vergonha. Onde já se viu falar, em público, de coisas tão pessoais? Que horror! Ainda bem que ela passou do bumbum para as pernas. Se ela disser que fez modificações em partes intimas, vou desmaiar de vergonha. Será que ela não vê que já passei dos… Bem, não gosto de revelar minha idade. Nem para mim mesma, mas para contrariá-la, já passei dos setenta! Fui aposentada!

– Os dedos dos pés, tortos, por causa de um reumatismo que sofri logo que me casei, tiveram de ser retificados. Fiz uma datiloplastia que os tornaram capazes de excitar os podófilos. Igualmente, aconteceu com os dedos das mãos, pois sempre quis ter dedos iguais aos da Sharon Tate. Olhe só como eles estão! Causa admiração aos queirófilos! Você sabe que me separei e tenho de provar para o meu ex que não estou de jogar fora. Estou namorando sem parar. Estou vivendo momentos de paraíso!

Credo! Ela não mudou só de aparência! A cabeça também deve ter passado por uma cefaloplastia, ou por uma amnestoplastia, pois perdeu todo o recato que uma mulher deve ter.

– Pois é, Professora! Para isso, submeti-me a uma ninfoplastia e até a uma himenoplastia para recuperar sensações de que havia me esquecido. Depois, se não estiver tudo no lugar, como dizem, a meninada nem olha pra você! Como me envaideço, quando pensam que tenho vinte e poucos anos! Não há melhor alimento para o ego!

Santo Deus, creio que ela se submeteu até a uma logoplastia, porque decorou todas os termos cirúrgicos possíveis; mas perdeu o sentido da pudicícia. Tenho a impressão de que passou também por uma pneumoplastia ou uma psiqueplastia; mas está necessitando mesmo é de uma psicoterapia. Posso estar enganada, mas…

– Alélia, você faz jus ao nome que tem! Kyrie, eleison!

por José Fernandes.

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