• Acessibilidade:

Ano Cultural Acadêmico Eurico Barbosa

Publicado em 8 de março de 2018

      ANO CULTURAL ACADÊMICO EURICO BARBOSA

 

 

No mundo em que a vaidade açoita valores, subverte princípios e infringe a ética, surpreendi-me com a humildade e despojamento do escritor, advogado, jornalista e acadêmico, Eurico Barbosa dos Santos, tão logo o conheci, em 1997, na sala da Presidência do Tribunal de Contas do Estado.

De pronto, assustei-me com a enormidade do ‘Manto Sagrado’ que cobria, sob o tampo de vidro, sua mesa. Ih! Flamenguista! Era muito para meu gosto futebolístico e de tricolor das Laranjeiras. Pior: explicou-me que era também atleticano por causa das cores (e eu, esmeraldina!). Mas engoli o desgosto, afinal, a audiência que me foi, gentilmente, concedida objetivava dirigir-lhe um pedido: patrocinar alguns poemas que compunham meu projeto Poesia em doses (poemas nos muros). E sua generosidade, já naquele instante, escancarou-se, e vi que a Cultura era parte de destaque em sua vida. Assim, a generosidade, aliada ao amor à cultura, um marco na Alameda das Rosas: um muro grandioso abarrotado de vozes emanadas dos poemas.

Também, ex-presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, e, por duas vezes, da Academia Goiana de Letras (não por reeleição, que ele é contra, mas por força das circunstâncias e de Estatuto), foi acolhido no sodalício, como acadêmico, em 31.10.1996, em Sessão Magna de Posse. Recepcionado pelo acadêmico Antônio José de Moura, tornou-se o terceiro ocupante da Cadeira Nº 13, patroneada por Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira, sob aplausos dos tantos que o admiravam, referendados, ainda hoje, pelos que o admiram. Assina, semanalmente, uma das colunas mais apreciadas do Diário da Manhã. Já publicou dez livros que enriquecem bibliotecas, e vários originais estão a caminho do prelo.

Em 2001, quando um grupo de acadêmicos, o qual integrei, com desmedido orgulho (era, eu, novel acadêmica), incitou-o a candidatar-se à presidência da AGL, foi taxativo: “Se eleito, cumprirei apenas um mandato. Jamais aceitei a reeleição, sou contra o continuísmo”. E não aceitou mesmo. Findos os dois anos de sua gestão, sequer, permitiu que o assunto fosse abordado. Argumentei, discordei, refutei tamanha inflexibilidade, mas não houve jeito. Insistência vã. Não só de minha parte, mas de todos os que se aventuraram a essa difícil empreitada, é bom frisar. A decisão era irreversível: seu mandato possuía prazo de validade, ditado por suas convicções.

A cadeira de presidente não o imanizou. É verdade: aquele famoso ímã, que prende ao cargo, não teve a menor força com ele. Imune ao deslumbramento, tão próprio dos aspirantes ao “poder eterno”, o acadêmico Eurico Barbosa abdicou do legítimo direito à reeleição, sustentado por seus conceitos, para abrir espaço a uma nova candidatura. “Renovar é preciso. Sempre.” – arrematou. Parêntesis: acho que sua generosidade, induzida pelas circunstâncias do momento, permitiu-lhe abrir uma exceção, uma brecha carinhosa: incentivou-me à reeleição. Particularmente, se legítima, nunca me opus a essa prática. Reelegi-me. Com seu desmedido e imprescindível apoio. Por certo, uma concessão de pai, amigo, mestre, conselheiro, habitante especial de meu coração.

Sempre me surpreendeu bastante o espírito acadêmico de Eurico Barbosa, sobretudo, na função de presidente, para quem a AGL esteve (e está) acima de tudo. Em nenhum momento, usou a entidade, ou o prestígio dela advindo, para promover-se ou para lustrar-se aqui, acolá, na mídia. Apenas, limitou-se a exercer as funções para as quais foi escolhido. De forma ética, proba e altruística. E sem alardeios, poses e pompas. Menos ainda, vaidade. Orgulho, sim, pela Instituição que representava.

Com muita altivez, carregou, obstinado e corajoso, os dois anos de sua gestão, marcados por sérias dificuldades. Porém, jamais se deixou subjugar por elas. Ao contrário, buscou sempre enfrentá-las com seu jeito conciliador e sábio, suprindo, com o próprio bolso, as deficiências financeiras da Casa. Instituiu o Prêmio Colemar Natal e Silva e o Troféu Goyazes (idealizados pelo acadêmico Miguel Jorge), e, apesar dos contratempos e oposições, viabilizou sua realização em 2002 e 2003. Priorizou a valorização dos acadêmicos, promoveu o resgate da memória dos que migraram para outra dimensão, publicou dois números da Revista da Academia Goiana de Letras. Como convém a uma Instituição de imane porte, propiciou à AGL cumprir seu papel de difusora da cultura, dando vida a projetos inéditos, como o “Primeiro Ciclo de debates sobre a Crítica Literária Contemporânea”, a abertura da Academia à visitação de alunos da rede municipal, recepcionados pelos acadêmicos, e a criação do Boletim Informativo da AGL. Os empecilhos, muitos, jamais coibiram a vontade do presidente Eurico de tudo fazer pelo engrandecimento da Entidade. Sua humildade em ouvir, em acatar sugestões e em realizar as boas ideias de seus pares, assim como suas iniciativas, próprias dos que sempre estão atentos e dispostos ao trabalho, superaram quase todos os entraves.

O Ano Cultural Acadêmico Eurico Barbosa é, portanto, uma reverência justíssima conferida a esse confrade de notável cultura, de textos jornalísticos marcantes, contundentes, de postura acadêmica irretocável, sempre atuante no dia a dia da AGL, e pronto para acudi-la ao primeiro sintoma da necessidade de qualquer espécie. Abnegado no cumprimento de seus deveres, como pessoa, como cidadão e como intelectual, é uma voz potente no combate à corrupção, à subversão de princípios, ao desrespeito à dignidade e à cidadania, à injustiça, ao autoritarismo e ao descompromisso com a ética.

Por isso, quando deixou a presidência deste sodalício, fiz-lhe uma homenagem escrita, no DM, movida pelo respeito e admiração que sempre lhe devotei, sob o título: O presidente da ética, cujos trechos marcantes, inseri nesta minha fala.

Eurico Barbosa, ilustre morrinhense, honrou, como presidente, e honra, como acadêmico, a tradição e a história da Academia Goiana de Letras.

Seja deveras abençoado, meu querido confrade e amigo, o Ano Cultural Acadêmico Eurico Barbosa!                   

por Lêda Selma.

  • Compartilhe: