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Avezinhas de Deus

Publicado em 2 de Fevereiro de 2017

Assim as chamo, pedindo licença a São Francisco de Assis, santo de minha predileção. Como as crianças e as flores, elas têm a pureza da inocência e a candura da fragilidade.

A nem todas conheço pelo nome. Às vezes mantêm-se ariscas, pelo que mal posso identificá-las. A maior parte, contudo, não faz cerimônia: achega-se às árvores em redor da casa, adentra pelas janelas, revoluteia nas varandas. Os beija-flores ficam suspensos no ar, bem à vontade, sugando o mel de inesgotáveis corolas. Um deles, de penas escuras, deixa-se fascinar pelas luzes no banheiro: entra com impetuoso açodamento, pousa na arandela, esbarra no espelho; quando quer sair, nem sempre acerta o caminho e é preciso socorrê-lo, pequenino e frágil que é.

Logo cedo, uns periquitinhos verdes aboletam-se na cássia cor-de-rosa, de copa majestosa a essa altura das águas. Foram-se os dias em que seus galhos eram só flores, no auge da seca; desde as primeiras chuvas, cobriram-se de folhas e tudo agora é verde e vida. Ali, as maritacas fazem sua algazarra, que se prolonga até o sol esquentar.  Gostam de mamão e brotos de hortaliças e não se deixam pegar com facilidade.

Escondidas nas laranjeiras e nos pés de carambola, as rolinhas “fogo-pagô” são presença obrigatória, sozinhas ou em pequenos bandos quando há comida por perto. Durante horas, repetem sua cantilena – como se estivessem a me lembrar que as chamas e os arroubos da vida se apagaram, e que agora o tempo é de quietude e paz.

Os bem-te-vis têm plumagem amarela na barriguinha e uma listra branca na cabeça. Seu canto é o primeiro do dia; fazem a festa nos tanques e chafarizes e até passeiam pela borda da piscina, como donos do pedaço. Mostram-se afoitos, empenhados que estão na complicada feitura de seus ninhos, fechados e esféricos. Para eles, qualquer suporte serve: já os encontrei em vasos de samambaias e em galhos de bambu. Às vezes surpreendem, indo buscar gravetos na cesta onde “choca” uma galinha de mentira que enfeita a churrasqueira.

O coleirinha tem um canto lindo, mas só o macho nos brinda com gorjeios; vaidoso, é fácil identificá-lo, pois traz um colar branco e preto no pescoço, o que lhe dá origem ao nome. As fêmeas são menos enfeitadas; juntos, bebem água nas fontes e ciscam nos canteiros e no capinzal.

E há os pardais, pássaros urbanos que também frequentam áreas rurais, em todos os continentes do planeta; lembram com seu nome a minha cantora predileta – a quem, por ser pequenina e vivaz como eles, foi dado o pseudônimo de “Piaf”, que é pardal em francês.

Vêm também os joões-de-barro, os pássaros pretos, os anus. Não faltam seriemas, com seu canto triste e jeito desconfiado, mas que aos poucos vão ficando amigas e se aproximam de nós.

Toda a gente que vive aqui ou que nos visitam – netos e netas, de maneira especial – está ciente de que as avezinhas de Deus são bem-vindas, e que é proibido hostilizá-las; menos ainda, matá-las, prendê-las ou enxotá-las. Nem mesmo quando se tornam sócias indesejadas e senhoras donas das fruteiras que também são de estimação.

Algumas tímidas providências podem entretanto ser tomadas para garantir ao menos uma parte da colheita. Assim é que a parreira recebeu uma capa de sombrite, o que funcionou até os passarinhos descobrirem como chegar aos cachos de uvas por baixo da latada. Nas atas e nos figos usamos saquinhos protetores – os de filó, eles furam todos; já os de papel grosso são mais confiáveis, embora se rasguem com os aguaceiros de verão. Em todo o caso, é preciso que algumas frutas fiquem ao alcance dos nossos pequeninos (e vorazes) sócios, sem o que eles se afastariam – e como arriscar perder o deleite que é acompanhar de perto a alegria, a ingenuidade e a beleza desses amiguinhos do céu?

Outros viventes de asas aparecem, sem serem bem-vindos, Como é o caso das corujas, com seus voos rasantes e piados soturnos, que teimam em aboletar-se nas travas da varanda. São expulsas, mas voltam, fazendo lembrar histórias de mulheres teimosamente apaixonadas, que quanto mais são enxotadas, mais insistem em ficar perto do algoz.

Há também morcegos intrusos, que eu procuro afugentar com remédios caseiros e tecnologia de ponta. Importei de uma firma paulista um aparelhinho “último tipo”, que emite sons não perceptíveis pelo ouvido humano – mas que (diz a propaganda) é insuportável aos morcegos e ratos, mantendo-os à distância. Não faltou quem achasse graça de tal modernidade anunciada em uma revista de agropecuária; mas certo é que aqueles detestados mamíferos voadores sumiram, dentro do prazo de validade da geringonça eletrônica. Agora, estão a voltar, sujando tudo; e o pior é que perdi o endereço do fabricante.

Nas tardes de verão, nada há que se compare ao por do sol sobre o vale, à nossa frente. O espetáculo no céu é soberbo, entre as cores e reverberações do crepúsculo. De toda a parte, das árvores e das flores vêm os pássaros – as avezinhas de Deus – que nos rodeiam e encantam, voando livres e álacres no céu de porcelana.

por Lena Castello Branco.

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