• Acessibilidade:

BISCOITO CARRIJO

Publicado em 16 de agosto de 2018

Em 27 de junho de 1997, publiquei no Jornal O Araguaia, de Mineiros, direção do jornalista Fernando Brandão, o texto em epígrafe que, dentre outros, tem como objeto de estudo, a culinária mineirense, em âmbito folclórico, por exemplo, que os letrados chamam gastronomia. Ouso republicá-lo no original.

Apesar das influências estrangeiras tentando descaracterizar costumes e tradições originais, Mineiros, às duras penas, ainda mantém alguns deles. Por exemplo, a velha tradição culinária, mais específica da família Carrijo de Rezende, de saborear diariamente, mais ou menos às quatorze horas, uma gostosa quitanda regionalmente conhecida por “Biscoito Carrijo”. É claro que temos por aí uma infinidade de biscoitos: biscoito de clara, biscoito de doce, biscoito de nata, o de fubá de canjica, o de Santa Clara e até o de goma, que chamam também de “peta”, “pipoca”, “mentira” e outras denominações. A despeito de muito saboroso, é estranho como o biscoito pode virar bolacha, bofetada etc., num ambiente familiar, fazendo parte da pedagogia doméstica. Pode variar também para “abiscoitar”, em sentido de se alcançar vitória. Não abiscoitei ainda há pouco o prêmio “Troféu Tiokô, da União Brasileira de Escritores, de Goiás? É ainda palavra de origem latina, que se transformou em tradição cultural europeia, sobretudo portuguesa. Ao tratá-lo quitanda, o que ocorre quando vendido em botecos ou outras vendinhas por aí, vira um africanismo com origem na língua quimbundo, assim como mocambo, quilombo, cacimba, quibebe, malungo e outros tantos. Quitanda, aí, é uma feira, um mercado, como se diz no Norte do Brasil, em geral nas cidades de pequenas casas de comércio de frutas e verduras e objetos caseiros. Ou outros pontos onde coletivamente se vendem doces, broas, biscoitos, frutas e legumes. É a vendinha, o quiosque, o botequim nordestino e o bolicho do Sul, que é a taverna ou a bodega, usados com o mesmo sentido em algumas Repúblicas sul-americanas.

Mas o biscoito cá da terra tem um quê ou porquê de especial. Antes de tudo é o mais gostoso da região. Faz parte da excelente arte culinária local e já é um valor histórico indelével. É como a cachaça e a moça bonita, a medicina e a reza, que são tradições das mais características da terra. De tão forte, essa tradição já virou uma legenda, uma instituição do lugar. Esse tom conservador que lhe dão, é uma homenagem a Minas Gerais, Estado donde vieram os Carrijo de Rezende. Assim, os “Carrijo” ou “os Rezende”, têm mesmo esse importante costume de merendar às quatorze horas o gostosíssimo “Biscoito Carrijo”, sempre acompanhado de doces, bolachas, leite, coalhada, café, frutas, como a laranja e até o chá de tamarindo. Apesar de tradição, esse horário não consegue ser rígido, sobretudo nos encontros da família nas fazendas, onde as visitas são invariavelmente recebidas com a oferta desse delicioso biscoito e não sei mais quantas iguarias, pois o Carrijo de Rezende é mesmo farturento, podendo-se dizer que o “Biscoito Carrijo” nesses tempos de forte descaracterização dos costumes, já está virando um “tira-gosto” ou “quebra-torto” de qualquer hora.

De tão famoso já virou objeto de estudo e até receituário do livro “A Cozinha Goiana”, do escritor e mestre-cuca Waldomiro Bariani Ortencio. Anotem. Ingredientes: três pratos de polvilho de mandioca, um prato fundo de banha de porco; um prato fundo de água; 12 ovos e mais ou menos uma colher de sobremesa de sal. E agora o modo de fazer: colocam-se banha, água e sal, juntos, para ferver. Daí escalda-se o polvilho (despejar a banha e água no polvilho, mexendo-se seguidamente). Em seguida colocam-se os ovos, bem batidos, para amolecer a massa, ao ponto de passar por um buraco (redondo, mais ou menos de um centímetro) de um pano de 40×40 centímetros. Em seguida, espreme-se fazendo rodinhas (argolinhas) sobre a forma untada de banha. Deixa-se no forno (no de barro ficaria ainda mais gostoso) bem quente, durante mais ou menos uns quinze minutos, olhando seguidamente, até ficar meio rosado.

Rosado é o “estar no ponto”, uma bela sabedoria que só as boas quitandeiras entendem, e só os mestres-cucas conseguem desvendar, deixando, porém, o escriba com água na boca.

por Martiniano J. Silva.

  • Compartilhe: