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Cansado de cantar adeuses

Publicado em 2 de fevereiro de 2017

De uns tantos anos para cá, a humanidade do Brasil inventou muitas coisas esdrúxulas. Muitas palavras mudaram de conceito, muitos hábitos ditos por bons foram esquecidos, adotaram-se procedimentos – estranhos uns, agradáveis outros. Sob alguns aspectos, a humanidade brasileira melhorou – noutros, bestificou-se, barbarizou-se.

Pessoas ligadas às filosofias – ou, às vezes, pessoas apenas doutas – referem-se à perda ou ao vilipêndio de valores antes considerados nobres. A gentileza ficou esquecida, o trato interpessoal ganhou aspectos de selvageria, as agressões físicas nunca desapareceram, o cavalheirismo ficou démodé porque – dizem os trogloditas – a mulher inventou o feminismo e as etiquetas sociais desapareceram.

A humanidade de Pindorama foi engarrafada, asfixiada, silenciada e confinada ao longo de 25 anos, mais ou menos, numa versão contemporânea da Idade Média que, séculos atrás, asfixiou a Europa. As chamadas Grandes Navegações ensejaram o surgimento da tal Idade Moderna, inaugurada com um nome romântico – Renascimento. A humanidade tupiniquim teve o seu, que temos chamado de “redemocratização”, no período que sucede o fim do quinto dos revezadores da ditatura militar.

Essas lembranças ruins fazem sentido em mim. Não pela ignorância que quer de volta os militares na cúpula política ou que entendem que a resistência à ditadura também cometeu tortura. As pessoas que hoje registram seu primeiro meio século de vida (dizem que já nasceu quem chegará aos 150 anos) não sabem da onda de otimismo e liberdade dos anos que antecederam a sanha de poder que marcou duas vitórias seguidas em Copas do Mundo, o nascer da Bossa Nova e as transformações a que chamaram de “revolução sexual”, simbolizada na pílula anticoncepcional e na minissaia.

Tenho contado os meus adeuses – essas lágrimas incontidas que nos aliviam quando tampamos as urnas mortuárias de corpos queridos. Muitos de septuagenários, octogenários e nonagenários – mas há também os dos jovens que são lembrados como filhos e irmãos. Dói-nos chorar avós e pais e tios vetustos, mas a dor ante a juventude interrompida é terrível!

Esta semana, após alguns anos de luta heroica contra o câncer, foi-se a nossa Adriana, irmã caçula de Mary Anne. Ainda sob efeito do luto pela perda da mãe, de um dos cunhados e do marido, minha cunhada constatou que portava um tumor. Outros foram detectados em tempos posteriores, e o auge desse martírio deu-se no decurso do ano passado, agravando-se nos últimos seis meses.

Adriana nasceu já sob o arbítrio (outubro, 1964), não viveu os tempos felizes de que falei. Era menina (13 anos) quando perdeu o pai, após sete anos de tratamento similar (também câncer), período em que teve por cuidadores os irmãos mais velhos (Roseanna, Mary Anne, Flávia e Sérgio Augusto). Casou-se aos 19 anos, justo aquele tempo em que começava a nossa Renascença. Ela pôde curtir amizades de infância, amigas escolares, adolescentes ruidosas (redundância, hem?) e uns poucos namoros. Gerou duas lindas filhas, moças bem-educadas e adoráveis sobrinhas, Natasha e Amanda.

Adriana dedicou os últimos dias, quando as dores davam breves pausas, às despedidas. E despediu-se devagar das filhas, recebendo recomendações valiosas – calcadas naqueles valores que a nossa tal “renascença” escolheu suprimir – e orientações sobre a amizade, a família, os maridos (ambas casadas, respectivamente com Márcio e André) e a união, riqueza inadiável, inalienável, inesquecível para que a felicidade se faça presença, mesmo após a partida da nossa amada Adriana.

A vida, porém, recomeça todos os dias. E assim acontece também para nós – um septuagenário irreverente como eu ou um sóbrio e solene nonagenário ou, ainda, um jovem focado no aprendizado que lhe dará futuro.

Contudo, ando cansado de tantos adeuses. Assim, prefiro concluir com um “Até já, Adriana!”.

por Luiz de Aquino .

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