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CAPIM SECO

Publicado em 31 de julho de 2018
Era esse o apelido daquele matuto, goiano do pé rachado, nascido e vivido há quase 32 anos, lá pelas bandas das terras do Campo Limpo, distante oito léguas de Catalão, cidade importante do sudeste goiano. “A linha do Trem de Ferro, um dia vai chegar lá” — diziam!
Capim Seco era pouco esclarecido das coisas e dos fatos. Nunca havia saído do sítio onde nascera e vivia, e ali convivia com gente tão ou mais ignorante do que ele próprio. Era um pobre coitado. Analfabeto de pai e mãe. Contar? Só sabia com os dedos de uma das mãos. Se fosse necessária a ajuda da outra, já se embaralhava todo. Do trabalho de roça só fazia bem feito o da capina e o do arranque da mandioca. Os demais serviços da lavoura, não os fazia bem, visto que esses requeriam certa habilidade. O plantio, por exemplo, além de cavar a terra no ponto certo, depois de arada por arados manuais, fazia-se necessário contar na mão e separar com os dedos a quantidade de grãos necessários à germinação da planta. Era demais para Capim Seco.
A cidade de Catalão era para ele apenas “a cidade”. Para Capim Seco só havia, no mundo, o Campo Limpo e a “cidade”. Quando tinha de sair do sítio onde morava, se não fosse para ir a outro sítio ou a uma fazenda daquele rincão, era para ir à “cidade”. Enfim, era da roça para a “cidade”, da “cidade” para a roça.
Capim Seco era muito utilizado pelos moradores da região, para levar recados ou objetos, de um lugar para outro.
— Capim Seco! Vai lá na fazenda do Chico Borges levar esse dois tamboretes que eu fiz pra ele, dizia Dorvalino, o marceneiro da redondeza.
Tarefas como essa e outras do gênero, Capim Seco as fazia bem. Estava sempre levando alguma coisa ou algum recado de um lado para outro.
Os caminhos que ligavam as fazendas ou os sítios da redondeza, dizia-se, afundavam sob os pés do Capim Seco, pelas inúmeras vezes em que os percorria, levando recados e mimos dos rapazes casadoiros para suas prendas, quando namoravam às escondidas, já que aos filhos, à época (meados do século IXX e início do século XX), não se permitia escolher seu par para casamento… principalmente às mulheres… mas, isso não vem a este caso.
Certo dia, Chico Borges deu a Capim Seco uma missão especial: levar cinco contos de réis ao seu compadre Zorico Rosa, morador da cidade goiana de Ipameri.
Zorico Rosa era dono da padaria da cidade, localizada na Praça da Igreja do Divino Espírito Santo da bela Ipameri. Era muito fácil encontrar.
— Capim Seco, quero que você vá a Ipameri levar cinco contos de réis ao compadre Zorico. É o pagamento de uma dívida, e não posso deixar passar do dia certo, conforme o nosso trato, disse Chico Borges.
— Levar aonde, “seu” Chico?
— Em Ipameri.
— Ipameri? Onde é isso?
— Depois de Catalão. É a primeira cidade depois.
— Uai, “seu” Chico, tem outra cidade depois da “cidade”?
— Claro que tem. Tem várias. Para Ipameri não tem erro. A estrada é uma só, sem desvios nem vicinais. Você chegando, pergunta onde é a padaria. Todo mundo lá sabe. Não tem erro. Você só tem de ter cuidado para não perder o dinheiro. Olha, que todo cuidado é pouco, alertava Chico Borges.
Capim Seco não entendeu o que era “vicinais”, mas sem querer inquirir mais, apenas perguntou:
— É uma estrada só ate chegar lá?
— É uma estrada só, respondeu Chico Borges.
A tarefa era para o dia seguinte. Capim Seco naquela noite não dormiu direito, preocupado com a importante missão. Madrugou. Mal o sol nasceu, já estava na porta da fazenda do Chico Borges.
— Uai, Capim Seco, já chegou?
— Já, “seu” Chico. Estou preocupado com esse negócio de levar tanto dinheiro pra tão longe. Eu nunca passei da “cidade”, ainda mais pra levar dinheiro graúdo.
— Não tem problema, não. Vai dar tudo certo. É verdade que você vai ter de tomar muito cuidado pra não perder o dinheiro. Dinheiro não é como dois tamboretes. Todo cuidado é pouco, repetia Chico Borges.
Depois de uma tigela de café com duas fatias de bolo São Benedito, que foram devorados com sofreguidão pelo nervoso Capim Seco, deu-lhe, afinal, o fazendeiro um pacote de notas, até novas, que perfaziam o valor de cinco contos de réis. Tudo embalado em um pequeno embornal amarrado pela boca.
— Diga ao compadre Zorico que agradeço muito pela ajuda que veio na hora certa e pela confiança depositada em mim. Espero, um dia, retribuir o grande favor.
Capim Seco pegou aquele pacote, com toda a firmeza da mão direita, levando-o ao bolso, sem tirar dele a mão agarrada.
Vinha montado em um burro, já meio velho, mas ainda bom andador, com o intuito de, já dali, iniciar rumo à desconhecida Ipameri. Porém, antes, matutou:
— Vou voltar lá em casa e mandar a mãe costurar o bolso pela boca, pra não correr o risco de perder esse pacote de dinheiro.
E assim fez. Terminada a costura da boca do bolso direito, que continha os cinco contos de réis, iniciou Capim Seco a viagem à desconhecida Ipameri.
E lá ia ele, assobiando uma velha canção sertaneja, mas sempre preocupado com a espinhosa encomenda, e com muito medo de perder a preciosa carga. E lá ia ele, apalpando sempre o bolso direito para verificar se o pacote estava lá. Foi assim até que chegou a Ipameri. Num certo momento, não acreditando em suas próprias apalpações, resolveu apear do burro, descosturar a boca do bolso direito e verificar, com seus próprios olhos, se o dinheiro estava lá. Olhou. Estava. Mais tranquilo, e já quase findada a tarefa, voltou ao assobio, montando novamente e seguindo até adentrar a tal Avenida Central e procurar a Praça da Igreja. Achou! Já ia perguntar onde era a padaria do Zorico Rosa quando resolveu apalpar mais uma vez o bolso direito… e foi aquele susto. Não sentiu nada. Desmontou novamente, aflito, meteu a mão no bolso, e, nada!
Havia perdido tudo!

por Maria do Rosário Cassimiro.

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