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DESCASCADOR DE AMÊNDOAS

Publicado em 30 de julho de 2018

Para não falar da vida

seria capaz de tirar as sandálias

dos meus olhos

e beber o licor das minhas vísceras

de pássaro abatido.

 

O que fazer se até hoje

só tive acesso aos matadouros

edificados na extensão miserável

do meu destino?

 

Não quero a sensação

das mangas que caem para morrer.

 

Nos meus olhos

têm mais pedras do que peixes.

E eu nunca conversei

com as pedras dos meus olhos.

 

Não há alfaiate nesta terra

que possa suturar minha carne

que represa esse misto de sangue,

solidão e mentiras.

 

Tudo em mim é mentira.

Quem me vê;

não sabe que sou o privilégio

dos que mentem.

 

E se a carne é fraca,

serei imortal como açougueiro.

 

Estou completamente

estuprado de poesia.

 

Erguerei meus versos

como quem ergue uma hóstia

e darei de comer a todos.

 

Eu preciso ser digerido.

 

Quero estar dentro de todos

como uma olaria que vomita estrelas.

 

Porém, em mim,

nada é sagrado.

Não sou batizado em nada.

 

Nasci para provocar a eutanásia

das flores das gameleiras

e dos condores que velejam

nos Andes do meu coração.

 

Tenho nos quintais dos meus dedos

todas as sobras da vida.

 

Não sou um homem.

Sou um jardim de coágulos.

 

Meus versos são depósitos

de cinzas,

porque tudo em mim

está cremado à espera do vento.

 

Quero semear a minha ausência

nas crinas dos olhos em movimento;

e à sombra do crepúsculo verde

das mangabas,

ficarei a sós com a paisagem

triste do meu corpo.

 

Eu tenho que me ignorar.

por Ubirajara Galli.

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