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Em nome da esperança

Publicado em 2 de Fevereiro de 2017

Goiás, 15 Anos de Patrimônio Mundial.Relembrar a Vila Boa é atestar o quanto manter as tradições é extremamente moderno.Por isso, todos os que visitam nossa Cidade Patrimônio Mundial vão encontrar até hoje bem mais que o retrato fiel contido num Dossiê. Vão encontrar nosso berço umbilical, a preservação de nossa memória, o atestado idôneo de nossa história talhada entre o suor do trabalho negro, a dizimação indígena e a cobiça Bandeirante.

 

Vão encontrar a beleza poética de nosso passado, o olhar assustado e por vezes desconfiado de um povo acostumado a olhar para trás e vislumbrar séculos de existências e riquezas, orgulhosos de seu papel e importância na construção de um processo histórico que hoje pode lhes devolver a esperança e a conquista, a primazia e a plenitude de cidade patrimônio de nosso humilde coração de mãe terra.

 

Goiás, a Vila Boa senhora de nossos filhos, mãe abençoada de nossos caminhos de ouro e pedras só nos pediu a devolução de seu lugar na História. Para quem já foi a capital administrativa, política e cultural de uma capitânia e depois Província e teve retirada de sua primazia em nome de uma questionável modernidade, hoje, através da dialética da preservação, tornou-se mais importante do que sua algoz.

 

Por Goiás desfilam as águas do Rio Vermelho que não deram conta de lavar a dor da escravidão. Erguem-se Igrejas Centenárias cujos sinos nos lembram a procissão de fiéis e nos desnudam a ausência indígena. Casas históricas, tombadas e preservadas nos remetem ao ouro fértil e a cobiça bandeirante, nossas molduras e sonhos, nossos doces e frutas, as pedras e o pó guardado de nossa vidas. Mora em Goiás um povo orgulhoso de pertencer a si mesmos, cientes de sua importância, orgulhosos de seu passado, crentes na esperança de se tornar visível aos olhos do mundo através da transformação de sua pequena Vila Boa em Patrimônio da Humanidade.

 

Esse povo compreende melhor do que ninguém seu pertencimento e a sua esperança no futuro, justamente pela vivência do passado. Um povo que continua achando as coisas um “trem-bão” em cada coisa “boa demais da conta”. Goiás não foi apenas o berço de nossa história, terra e inspiração de Cora Coralina, foi também a pedra no pé de Pedro. Contra ela, uma torrente de argumentos pesaram para lhe tirar a primazia de ser a Capital. Goiás era símbolo de uma oligarquia, como se fosse possível que tivesse dono ou não fosse de todos nós. Era acusada de falta de progresso como se este fosse tão desejado mais do que havia. Problemas de toda ordem lhe foram imputados, mazelas de todos os tipos, doenças em todos os cantos, falta total de créditos no banco da esperança, espaço sem crescimento. Goiânia seria o espelho inverso.

 

Mas Goiás resistiu, reclamou, quase inviabilizou a mudança. Mas as forças do poder eram maiores que sua vontade e tudo era enorme, tudo era desfavorável, os ventos de 30 batiam com voracidade nos varais com suporte de bambus. Foram muitas as lutas, difíceis os caminhos, refutáveis os aceites. Saía a capital, ficava a cidade histórica, para sempre podermos buscar as origens de nossas indiferenças.

 

A vida calma, passos passados a pé, carroças em meio aos carros, cavalos em convivência harmônica com a velocidade dos acontecimentos. Ruas disformes em ondas de pedras, mãos escravas em cada casa, paredes irmãs, siamesas de vida, paz de igrejas coloniais, fé e crença, identidade e história… Goiás cresceu pra dentro, revirou e virou o vento do desterro, assombrou as assombrações dos hóspedes do indesejado. A riqueza de Goiás passou a ser seu acervo de tradições, sua Arquitetura Vernacular, sua conservação cultural, seus doces caseiros e comidas típicas em harmonia com sua poesia espontânea, seus rios de vermelho céu com o pôr-do-sol do interior de nossos olhos. Goiás é uma velha de cócoras dando lições de vida de como andar correta pelo tempo.

 

Dona de todas as tardes, senhora dos arquivos de nossa memória, madre de nossas orações infiéis, depois de 15 Anos do título de Patrimônio Mundial, Goiás permanece escultural. Traduz a sensação colonial de que podemos nos encontrar através do tempo e que ainda podemos nos reconhecer através da história.

por Nasr N. Fayad Chaul.

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