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O sobrado rosa da rua vinte: sua aura

Publicado em 16 de fevereiro de 2017

Um título que ressumbra a mistério e magia e cuja referência se justifica no sentido de intensificar  o halo desse sobrado que está  lá, na esquina das ruas vinte e quinze, rosamente déco, magistralmente soberbo, genuinamente goiano das décadas de trinta e quarenta,  registro número um  em Cartório da Nova Capital.

Se estudos urbanísticos modernos mostram que a rua é o espaço que complementa o perfil da casa e de seus moradores, (estilo e atividade sócio-econômico- cultural), não poderia estar melhor instalado que nessa histórica rua vinte, que abrigou número sugestivo de pioneiros da cidade que nascia, saudando em nuvens de poeira vermelha, os intrépitos novos  bandeirantes.

Sede-lar da família de um deles, testemunha de encontros políticos, sociais, culturais, espaço do embate dos sonhos, e lutas de seus moradores, foi, desde 1937 – em primeiro plano – a casa de Colemar Natal e Silva, de sua esposa Genezy de Castro e Silva, de suas quatro filhas Moema, Mariza, Magaly e Marilda e da mãe de Genezy, Tarcila Caiado de Castro.

E esta primeira face marca-lhe um vinco definitivo a formar, pelo menos para mim,  o contraponto – em segundo plano –  da unidade futura: sede da Academia Goiana de Letras – Casa Colemar Natal e Silva – simbiose de duas imagens consagradoras no meu universo afetivo.

É que o referido sobrado marca, ainda,  o tento de ser o primeiro teto próprio da Academia, fundada em 1939, e que ainda não tinha sede própria, aspiração que pôde ser atendida graças à iniciativa do então Presidente da Instituição, escritor  José Mendonça Teles, junto ao  governador Henrique Santillo, solicitando-lhe a compra e doação daquela casa para a Instituição, casa que, por quarenta anos, fora o lar e a oficina de trabalho do seu fundador: Prof. Colemar Natal e Silva.  Prontamente atendido, Mendonça Teles presidiu à inauguração solene da nova sede, que passou a ser designada Casa Colemar Natal e Silva, isto em 24 /8/87 , data natalícia do homenageado, e dela nos aproximamos novamente, agora, constituindo, portanto, duplo marco a ser comemorado.

Assim, a Academia, hoje sob a gestão do presidente,  professor e escritor José Fernandes,  busca fortalecer  seus princípios norteadores de abrigo e oficina cultural, sodalício congraçador, e, o que é importante,  também núcleo emissor de atividades estimuladoras da vida intelectual da comunidade  com que  se propõe manter dinâmica interação.

Neste sentido, trata de incrementar a produção intelectual de seus  membros, seja na elaboração de  livros, antologias,  conferências, ou indicando  nomes para  participação em Bancas julgadoras de Concursos, ou para representação em Congressos, e, sobretudo, através da colaboração  na sua tradicional Revista: Revista da Academia Goiana de Letras, em sua 23 edição, quando, por meio de ensaios, ficção, poesia, conferências, entrevistas, os acadêmicos  revelam sua versatilidade criadora.

Ao ocupar a cadeira n.4,  vaga com o falecimento de Colemar, ao adentrar aquele vetusto sobrado, o número 175 de rua vinte, centro, hoje tombado pelo patrimônio Histórico, sobrado tão representativo do estilo déco que marca as históricas construções de Goiânia, já como membro da  Academia Goiana de Letras, senti pesar-me, de maneira inequívoca, a interposição das duas imagens que o casarão me desperta. Se  a operação se realiza, por vezes, de maneira dramática, para mim, no confronto das imagens de ontem e de hoje, cada vez se torna mais palpável a capacidade de  lutarmos pela qualificação de nossas atividades, fazendo da Academia Goiana de Letras um centro credenciado de realizações culturais, como sempre preconizava seu fundador.

E de lutarmos, também, pelo congraçamento de seus participantes,o que implica no evidente respeito às diferenças de opiniões, alimentado-se a  capacidade de convivência de seus membros,  caldeada na sabedoria que todos esperam de nós, o que nos torna reféns de uma aura energizante, ativista e dinamizadora, diferente do que se encontraria em um sodalício de acomodados.

Eu diria, como o escritor  Antonio Olinto, da ABL,  em seu antológico romance A  Casa da Água, o primeiro da trilogia que se completa com O rei de KetoTrono de vidro, quando, num extraordinário recurso  estilístico — o emprego da apóstrofe, em contextualização inusitada — dá  presença e voz a uma raça, a raça negra que, saindo da África, chega ao Brasil, enriquece-se com o processo de miscigenação, sobretudo na região da Bahia, e volta, depois, para a mãe pátria.

Assim, também, concluiria, parafraseando o conhecido escritor e dinamizando o meu apelo  “Que o sobrado rosa da rua vinte, ó sobrado, possa, pelas gerações vindouras, ser baluarte de uma viva consciência cultural, de uma profunda essência de goianidade”, traços que lhe parecem inerentes, na dupla face que ostenta como sede da Academia Goiana de Letras e Casa Colemar Natal e Silva.

por Moema de C. e S. Olival.

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