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OS NÓS DA LEMBRANÇA

Publicado em 14 de novembro de 2018
Sou mais velho que o plástico. Ou pelo menos mais antigo do que o uso corrente desse material. Quando menino, ali pelo final da década de 50 do século passado, a gente morava às margens do Rio Claro, no Oeste Goiano, e meu pai me levava para pescar quase que diariamente. Eu era seu colega inseparável. A pescaria, vendo assim de longe, era uma atividade fundamental para a nossa subsistência. Acho que mais da metade das proteínas e calorias que consumi na infância veio dos peixes do Rio claro.
O plástico ainda não existia. Pelo menos não era usual para as linhas de pescar. Meu pai usava umas linhas que ele mesmo preparava de fios de algodão, que minha mãe fiava em sua roca muito antiga, ganhada de uma tia-avó que não conheci. A tralha completa era constituída de vara de pindaíba, especialmente assada para ficar resistente, enfiada num chumaço de talo de buriti, que funcionava como boia e molinete; encastoo feito de arame de cerca ou de corda de violão; chumbada adaptada de balote de espingarda, e o anzol comprado de mascate. O anzol quando ficava preso no fundo do rio era uma perda para se lamentar por mais de mês.
Meu pai tinha uma canoa tipo cocho, muito boa de equilíbrio, que ele mesmo fez de tronco de tamboril seco. A gente costuma pescar de rodada, na boca da noite, que era quando tinha encerrado o expediente na roça e os peixes saíam em cardumes em busca de alimento e podiam enganchar mais facilmente em nossos anzóis. Me lembro que a linha molhada pesava muito e era medonha para embaraçar. Dependendo do grau do enrosco, era mais prudente nem tentar desembaraçá-la ali. Soltava-se a linha do amarrilho da vara e jogava o molho com anzol e tudo dentro do embornal para fazer o serviço em casa.
Ao chegar em casa, minha mãe cuidava de limpar os peixes e meu pai e eu íamos desembaraçar as linhas, à luz de candeia. Aqueles afazeres era o rádio que a gente não tinha. O fazendeiro tinha rádio e não desembaraçava linhas à noite; escutava música em reunião familiar. Quando a gente desatava todos os nós, esticava a linha, juntamente com as demais em pontos estratégicos na parede de pau a pique para secar. Se não cuidasse direitinho elas mofavam e perdiam a resistência.
Aquilo era quase um ritual, um trabalho de parceria e concentração, um jogo de paciência, uma ioga, um feitio iniciático. Meu pai aproveitava para contar casos ou me dizer coisas que parece me acompanhar até hoje.
Nos dias atuais, tenho a nítida sensação de que, quando escrevo, as idéias me vêm embaraçadas como as antigas linhas. Vou desfazendo os nós e liberando as pontas, com paciência e método, no mesmo jogo lento e iniciático do tempo das linhas de algodão. E, às vezes, tenho a sensação mística de que meu pai ainda está comigo e eu sou apenas seu ajudante nos desmanches dos nós.

por Edival Lourenço.

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