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Trema de raiva!

Publicado em 4 de Abril de 2017

Trema de raiva, o trema caiu! Aguenta, compreensão! Ah! que imponente aquele “u”, feito lavadeiras emparelhadas, carregando na cabeça suas trouxas de roupa, com toda elegância, a despeito dos que não lhe davam trela ou, tampouco, lhe demonstravam simpatia! Pois é, até a tranquilidade, intranquila, perdeu sua referência, sequestrada, após anos e anos sob ameaça, num encher sem-fim de linguiça: Portugal, Brasil e afins (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, e São Tomé e Príncipe), que formam a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa/CPLP. O Brasil, majoritário, tomou a dianteira, bateu o pé, e o Acordo acordou, saiu da gaveta e, desde 1º de janeiro de 2009, começou atazanar o sossego de duzentos milhões de brasileiros, os grandes faladores e difusores da língua portuguesa. E, por aqui, só 0,5% das palavras sofreram alteração, hem?! Já em Portugal, 1,6%.

O Novo Acordo Ortográfico – proposta, apenas, ortográfica, ou seja, restringe-se à língua escrita – nasceu, cresceu, adolesceu e, depois de muita lereia, com pinta de paranoia, impôs-se aos lusófonos, sem cara de debiloides, mas com jeito de androides, depois de tanto diz que diz; tudo feito sem tramoia, juram. E nosso alfabeto, oficialmente, reintegrou as gringas clandestinas k, y, w, usadas em certas situações.

Soberana, mas nem estoica ou heroica, a unificação, permeada de exceções e de concessões, consumou-se, titubeante, tropeçando nos primeiros voos, com certo enjoo (quem sai ao vento, perde o acento!). Deem vivas os que veem como relevante essa panaceia ortográfica que, na verdade, unificou sem unificar! Vá entender… As pobres duplas “oo” e “ee”, se tomarem sol e chuva, paciência! Chapéu? Ih! nem pensar! De minha parte, não abençoo as novas regras, nem me magoo com elas; com ressalvas, perdôo, pela iniciativa, o filólogo e lexicógrafo, além de crítico literário, Antônio Houaiss, que também ostenta, no vasto currículo, os títulos de diplomata, ministro da Cultura e presidente da Academia Brasileira de Letras.

Confesso: detestei a malfadada ideia! O resultado? Cefaleia! E tudo sem acento! Por quê? São paroxítonos com ditongos abertos e, por isso, perderam seu acompanhante, o acento agudo. Outra remodelada, isto é, desacentuada, pasmem, a feiura, que acabou ainda mais feia. Sina de todo “i” e “u” tônicos, precedidos pelos tais, os ditongos abertos. Já a viúva, benza Deus! manterá seu arremedo de falo, pois autônomo, o hiato salvou o “u” da viuvez. Também, os oxítonos terminadas em “éis”, “éu”, “ói”, “i” e “u”, mesmo pluralizados, ficarão com o sinal gráfico em cima dos topetes. Arrebóis, lumaréus, tuiuiús, céu afora, ostentarão sua inteireza que, por sorte, não foi para o beleléu. Ah! os proparoxítonos? Resguardaram-lhe a integridade. Pródiga decisão!

A mesma sorte não teve a pera, que pela de medo dos pelos daquele bigode sobre a boca que a abocanha. Entenderam?! Ih! os conhecidos pares pára/para, pêlo/pelo, péla/pela, pólo/polo não têm mais o diferencial, mas o “têm”, no plural, tem, como sempre. Duas duplas escaparam: pôde/pode e pôr/por. É, alguns coroados mantiveram o poder; outros, perderam a coroa. Já o circunflexo de fôrma é opcional, fica a gosto do usuário. Pôr lenha na fogueira, não quero; contudo, ninguém pôde me dizer se pode responder isto: qual a forma do bolo? E aí?!

Preparem-se para perder os cabelos, pois a questão do hífen continua problemática e tumultuando paciências. Houve até separação de casais que viviam em perfeita união.  Infernizaram, ou melhor, hifenizaram tanto a vida de alguns que, agora, estão ligados por uma ponte: micro-ondas, anti-inflacionário, macro-ônibus… Os que fazem essa dobradinha que o digam, coitados!  Mas houve também o acasalamento de antigos separados: antirroubo, aeroespacial, extraescolar…

Seguindo a rotina de antes, os antagonistas além/aquém, pré/pós e, ainda, “ex”, “sem”, “recém”, “vice”, “pró” permanecem separados de seus companheiros pelo hífen. Portanto, se seu ex-amor partir para além-mar, pós-rompimento, mesmo sem-dita, fique alerta, pois algum recém-chegado poderá cobiçar aquele coração pró-romance novo.

Bem, se tanto faz contato ou contacto, acadêmico ou académico e outras liberações, houve unificação? Incontáveis dúvidas, muitos pontos controversos fomentarão, por muito tempo, essa polêmica que tem ainda um longo caminho…

por Lêda Selma.

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