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A última folia de reis de Geraldo Lourenço

Publicado em 16 de fevereiro de 2017

Meu pai era folião de reis. Começou adolescente, como palhaço. Passou por todas as posições. Fazia todas as vozes, tocava todos os instrumentos. Tinha de cor os ritos, os cantos e o momento exato de entoá-los. Dançava catira, tirava terço e leiloava prendas, declamava poemas campeiros. Alguns da própria autoria.  Sabia afinar os instrumentos. E eventualmente até consertar os defeituosos. Na verdade, alguns ele mesmo fazia, como o zabumba, o pandeiro, o pífaro de taboca com embocadura de cera e o reco-reco de canoinha e mola de arame. Mas reconhecido mesmo era como o embaixador de voz possante e afinada.

Naquele ano tive a felicidade de acompanhar meu pai a folia inteira. Desde a saída da casa do alferes Augusto Silvério e D. Maria,  até a festa de entrega do festeiro Odilon Pereira e D. Alvina, ambos locais na fazenda Macaco. O giro cobriu uma área enorme: regiões da Pindaíba, Santo Antônio e Canoa, além da fazenda Macaco, município de Iporá.

Uma chuva fina, quase névoa, caía sem intervalos desde o início de dezembro. As trilhas das fazendas eram pura lama escorregadia. Especialmente na região do Macaco, de terra massapé. Nos sete dias de giro meu pai teve crises. Algumas vezes lhe faltou fôlego e sua voz entrecortava. Corria em seu auxílio o sobrinho, também folião talentoso, Zé Lourenço. Esta é uma lembrança viva em minha memória, como se tudo tivesse acabado de acontecer. Mas lá se vão quase cinco décadas. Era cinco de janeiro de 1965. Num esforço extraordinário, meu pai superou as fragilidades da saúde, fez a entrega da folia, por glória e honra do Menino Jesus e dos Santos Reis, os magos do Oriente: Belchior, Gaspar e Baltazar. Depois do terço, ainda viriam o catira, o leilão das prendas, a comilança e o arrasta-pé, até o amanhecer. Depois do amanhecer ele, como embaixador, ainda puxaria o Cântico de Despedida. Que é  sempre uma hora de muita emoção.

Mas, no alvoroço, meu pai me passou a lanterna e disse: vai lá no piquete e pega o Pedrês, e vamos embora. Não me sinto bem.

Joguei um baixeiro nas costas para amenizar a chuva, fui ao pastinho, enfiei o buçal na cabeça do cavalo, que era bem manso, e vim puxando pelo cabresto. Meu pai, um vulto triste à luz do lampião, já me esperava na casa dos arreios. Arriamos o cavalo e partimos, por volta da meia noite. Meu pai me jogou na garupa, montou no arreio e nos cobriu com a capa velha de feltro. Se não me engano era da marca Ideal.  Eu não vi mais nada, o burburinho da festa ficou abafado e foi sumindo pouco a pouco, à medida que nos distanciávamos.

Agarrei-me à cintura de meu pai. Senti-me seguro e próximo a ele como nunca me sentira antes. A escuridão sob a capa, o som abafado da chuva, o cansaço, o sono, a andadura, o cheiro forte de suor do cavalo misturado ao odor de fumo que exalava de meu pai me deram a sensação de que eu entrara num mundo amoroso e mágico. Como se recolhido num útero. Talvez um útero mais tosco. De pai é que era.

Havia momentos em que a cavalgadura escorregava das quatro. A destreza de meu pai com a rédea soerguia o cavalo e o aprumava novamente, dando sequência à viagem. Apesar dos escorregões e solavancos, chegamos ilesos, no alvorecer. Minha mãe assustada viu que havia algo de errado. Meu pai falou da fadiga, do fôlego curto. Soltei o cavalo enquanto minha mãe acendia o fogo de lenha para fazer um chá. E meu pai mal supunha que na próxima folia já estaria morto, devorado pelo mal de chagas, antes dos 40 anos. O sobrinho Zé Lourenço herdou a folia e gira até hoje. *

*Na verdade, pela primeira vez em 49 anos, Zé Lourenço não girou na folia. Ele já estava debilitado por um câncer e veio falecer em 02/03/2014.

 

 

por Edival Lourenço.

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