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UMA HISTÓRIA REAL

Publicado em 24 de setembro de 2018
O cara olhou-me fixamente e saiu-se com esta:
– Escuta aqui, meu chapa, você não é aquele que morreu ontem num acidente de trânsito? Ainda ta com o sinal da pancada na cabeça e tem sangue na roupa…
Fiquei na dúvida, olhar abestalhado cubando o tempo, sem saber o que dizer. Por fim, respondi:
– O cavalheiro deve estar enganado, só pode estar.
E parti sem mais delongas.
Pôxa, acontece cada uma!
Mas mal dei alguns passos, parei. E se aquilo fosse verdade? Busquei o primeiro espelho e me encarei, lívido e surpreso.
Pois não é que havia mesmo um grande hematoma em meu rosto? E meu terno não estava de fato ensanguentado, e roto, como afirmava o sujeito?
Corri para um banco de praça, sentei-me e tratei de ordenar os pensamentos.
Ponderei, então: – Se eu tinha morrido, como é que estava ali, vendo, ouvindo, sentindo tudo, como antes.
Apalpei meu corpo, era eu, sim. Não tinha dúvidas. Eu, em carne e osso. Vinha vindo uma moça e eu quis tirar a limpo a história. Dirigi-lhe a palavra:
– A senhorita não me leve a mal, mas, por favor, pode dizer-me se estou vivo?
Foi horrível. Ela passou por mim como se não me visse. Tão indiferente que chegou a pisar-me os pés, atravessando-me o corpo com o seu. E outros transeuntes fizeram o mesmo.
A tarde caíra e começara a chover.

por Paulo Nunes Batista.

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